PEQUENOS FRAGMENTOS DE ILUSÃO
Por Paulo Cesar de Oliveira
Tenho escrito poemas com tanto sentimentalismo meu
amor. Mas você não consegue ler nas entrelinhas dos mesmos. E talvez por isso
esses poemas se percam sem nunca se tornarem uma poesia.
Você anda tão preocupada em interpretar e me
analisar pelos meus poemas que acaba perdendo a síntese que se esconde
caprichosamente por detrás de cada palavra. É preciso olhos do coração e
ouvidos da mente para captar o sentido sutil daquilo que não foi dito através
daquilo que foi dito.
Algumas vidas não são vividas porque escolher
implica em perder o que não escolhemos. A vida é feita de escolhas e acabamos
nos conformando com a escolha errada, mas que no instante da decisão parecia o
certo a fazer.
O que eu preciso lhe dizer meu amor dos outros é
que podemos passar uma vida inteira sem
conhecer ninguém. Mas também podemos encontrar a pessoa certa na hora errada.
Sim, isso é possível e às vezes acontece. Mas em hipótese alguma significa que
o momento foi perdido.
Essas minhas coisas escritas é algo misterioso e
surpreendente, principalmente para mim, no entanto, penso que melhor do que
escrever poemas e poesias é fazer de tudo que acontece na tua vida uma poesia. É
captar e viver plenitude dos acontecimentos bons e ruins, mas sempre com
gratidão.
Talvez e provavelmente eu tenha fracassado em quase
tudo, como já escrevi um dia. Pelo menos fracassei em duas coisas importantes
na vida de qualquer pessoa. E é preciso não sentir culpa por isso. Viver sem
culpas é um dos segredos de se viver uma vida plena. Mas gosto de lembrar que a
vida é cheia de possibilidades e, como diz a letra da música do falecido
cantor, “os dados ainda estão rolando”. Dados sim porque a vida também é um
jogo. Um jogo que muitos pensam que termina com a morte, mas a morte ainda não
é o “Game Over”.
Talvez a vida seja um jogo sem fim. Um jogo que não
termina nunca e cujas regras vamos conhecendo na medida em que jogamos.
Eu escrevo porque quando escrevo não me sinto tão
inútil num mundo em que tenho dificuldades de adaptação. Acredito que seja um
vício e uma fuga, ou um grande ócio, mas que me proporciona algum prazer, assim
como, fumar, beber e usar drogas, para algumas pessoas, também se constituem um
vício e um prazer.
Não obtive êxito em me tornar um vencedor e bem
sucedida pessoa segundo os critérios e avaliações societárias. Tenho
consciência disso. Mas mesmo assim tenho feito de cada suposta derrota e
frustração um motivo e uma razão para me manter em pé. Cair e não me levantar
seria para mim a pior das mortes.
Apesar da dor da saudade, não propriamente de você,
como pessoa física, mas do amor que envolveu a minha alma e que nunca mais pude
esquecer, sou grato aos deuses do amor pela experiência. Parece que as marcas
feitas na alma não se apagam jamais. É o que penso hoje.
Também penso que o amor quando real é algo que se
mantém vivo por si só e mesmo sem reciprocidade não morre. Compreendi então os
poetas quando falam do amor eterno.
E o amanhã? O que me espera o amanhã, o futuro? Um
novo amor de verdade, pleno? Sem perdas e danos? Pouco provável, mas possível,
afinal é um mundo de cheio de possibilidades. Mas o sentimento que tenho é que
ainda passo por um tempo de travessia. E tenho dúvidas, se findado esse tempo,
que não sei quanto dura (e pode durar o restante da minha vida), ainda terei os
mesmos motivos e a mesma energia.
Quem sabe chegará para mim o mesmo tempo que o
poeta Drummond anunciou :
“Chega um tempo em que não se diz mais: meu amor. Porque
o amor resultou inútil. E os olhos não choram. E as mãos tecem apenas o rude
trabalho. E o coração está seco”.
Tudo ainda me parece muito duvidoso e nebuloso
apesar dos meus esforços nos últimos anos em tentar compreender o sentido, a
razão e o objetivo de uma vida orgânica nesse planeta chamado Terra. As
religiões, a ciência e a metafísica têm sido insuficientes para responder a
meus questionamentos existenciais. Talvez eu não devesse ter esses tipos de
questionamentos, no entanto, sinto ser isso uma necessidade básica da minha alma
depois que ultrapassei os quarenta e poucos anos de idade.
Tenho buscado em vários caminhos, mas agora me
sinto cansado como um viajante que percorreu vários quilômetros e ainda se sente
como não tendo conseguido ultrapassar o
deserto. Gostaria que você pudesse estar comigo nessa viagem, mas todos me dizem
que essa é uma viagem para um Eremita.
Descobrir que o mundo em que vivemos é uma ilusão,
de certa forma foi uma grande descoberta e um grande despertar, mas isso tem
tido um efeito colateral muito grande em mim. Talvez eu não quisesse descobrir
isso e tão somente ficar na ilusão do teu amor. Mas a minha alma precisava dar
prosseguimento ao seu aprendizado de várias encarnações e com isso empreendi
essa viagem ao Grande Despertar.
Mas lhe peço com amor que não dê tanta importância
ao fato de algumas vezes ter-lhe informado que o mundo em que você tanto
investiu é um holograma. Essa é uma descoberta totalmente pessoal e só será
compreendida individualmente “de per si” no momento escolhido pelo Divino Espírito
Santo, a Quem cabe essa missão. Se menciono isso é apenas por uma questão de
honestidade comigo mesmo, com meus mestres, com você e com amor que sinto por
ti. Viva tua vida normalmente como se tudo fosse real. Só lhe peço que procure
sempre manter no teu coração, a gratidão
e o perdão com tudo e com todos. Se fizeres isso, a ilusão não terá influência
em ti.
Preciso terminar agora, pois essas palavras são
apenas alguns pequenos fragmentos e não é o todo. Como mensagem final lhe digo
que eu, como qualquer ser humano, tenho me enganado algumas vezes no
conhecimento das coisas visíveis. No entanto, acredito que como já citou
Heráclito, o invisível é mais forte que o visível. E com certeza essa é o motivo
por que o amor ainda permanece em mim independente da tua presença física.
(© Paulo Cesar de Oliveira – abril 2013)
“Todas as cartas de amor são ridículas” – Fernando
Pessoa



