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sexta-feira, 19 de setembro de 2014
quarta-feira, 13 de março de 2013
O PROPÓSITO DA VIDA E A FELICIDADE HUMANA
Por SIGMUND FREUD
A questão do propósito da vida
humana já foi levantada várias vezes; nunca, porém, recebeu resposta
satisfatória e talvez não a admita. Alguns daqueles que a formularam
acrescentaram que, se fosse demonstrado que a vida não tem propósito, esta perderia todo valor para
eles. Tal ameaça, porém, não altera nada. Pelo
contrário, faz parecer que temos
o direito de descartar a questão, já que ela parece derivar da presunção humana, da
qual muitas outras manifestações já nos são familiares.
Ninguém fala sobre o
propósito da vida dos animais, a menos, talvez, que se imagine que ele resida no fato
de os animais se acharem a serviço do homem. Contudo, tampouco essa opinião é
sustentável, de uma vez que existem muitos animais de que o homem nada pode se
aproveitar, exceto descrevê-los, classificá-los e estudá-los; ainda assim, inumeráveis espécies
de animais escaparam inclusive a essa utilização, pois existiram e se
extinguiram antes que o homem voltasse seus olhos para elas.
Mais uma vez, só a religião
é capaz de resolver a questão do propósito da vida.
Dificilmente incorreremos em erro
ao concluirmos que a idéia de a vida possuir um propósito se forma e desmorona
com o sistema religioso.Voltar-nos-emos, portanto, para uma questão menos ambiciosa,
a que se refere àquilo que os próprios homens, por seu comportamento, mostram
ser o propósito e a intenção de suas vidas.
O que pedem eles da vida e o que
desejam nela realizar? A resposta mal pode provocar dúvidas. Esforçam-se para obter
felicidade; querem ser felizes e assim permanecer. Essa empresa apresenta dois
aspectos: uma meta positiva e uma meta negativa. Por um lado, visa a uma ausência de
sofrimento e de desprazer; por outro, à experiência de intensos sentimentos de
prazer. Em seu sentido mais restrito, a palavra ‘felicidade’ só se relaciona a esses últimos.
Em conformidade a essa dicotomia de objetivos, a atividade do homem se desenvolve
em duas direções, segundo busque realizar – de modo geral ou mesmo
exclusivamente – um ou outro desses objetivos.
Como vemos, o que decide o
propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. Esse
princípio domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início. Não pode haver
dúvida sobre sua eficácia, ainda que o seu programa se
encontre em desacordo com o mundo
inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. Não há possibilidade
alguma de ele ser executado; todas as normas do universo são-lhe contrárias.
Ficamos inclinados a dizer que a intenção de que o
homem seja ‘feliz’ não se acha
incluída no plano da ‘Criação’. O que chamamos de felicidade no sentido mais
restrito provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto
grau, sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica.
Quando qualquer situação desejada pelo princípio do prazer se prolonga, ela produz
tão-somente um sentimento de contentamento muito tênue. Somos feitos de modo a só
podermos derivar prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado
estado de coisas.
Assim, nossas possibilidades de
felicidade sempre são restringidas por nossa própria constituição. Já a
infelicidade é muito menos difícil de experimentar. O sofrimento nos ameaça a partir de
três direções: de nosso próprio corpo, condenado à
decadência e à dissolução, e que
nem mesmo pode dispensar o sofrimento e a ansiedade como sinais de
advertência; do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição
esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros
homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do
que qualquer outro. Tendemos a encará-lo como uma espécie de acréscimo gratuito,
embora ele não possa ser menos fatidicamente inevitável do que o sofrimento
oriundo de outras fontes.
Não admira que, sob a pressão de
todas essas possibilidades de sofrimento, os homens se tenham acostumado a
moderar suas reivindicações de felicidade – tal como, na verdade, o próprio princípio
do prazer, sob a influência do mundo externo, se transformou no mais modesto
princípio da realidade –, que um homem pense ser ele próprio feliz, simplesmente
porque escapou à infelicidade ou sobreviveu ao sofrimento, e que, em geral, a
tarefa de evitar o sofrimento coloque a de obter prazer em segundo plano.
A reflexão nos
mostra que é possível tentar a realização dessa
tarefa através de caminhos muito
diferentes e que todos esses caminhos foram recomendados pelas diversas
escolas de sabedoria secular e postos em prática pelos homens. Uma satisfação irrestrita
de todas as necessidades apresenta-se-nos como o método mais tentador de conduzir
nossas vidas; isso, porém, significa colocar o gozo antes da cautela, acarretando
logo o seu próprio castigo.
Os outros métodos, em que a fuga do desprazer constitui o
intuito primordial, diferenciam-se de acordo com a fonte de desprazer para a qual sua
atenção está principalmente voltada. Alguns desses métodos são extremados; outros,
moderados; alguns são unilaterais; outros atacam o problema, simultaneamente, em
diversos pontos.
Contra o sofrimento que pode advir dos relacionamentos humanos, a
defesa mais imediata é o isolamento voluntário, o manter-se à distância das outras
pessoas. A felicidade passível de ser conseguida através desse método é, como
vemos, a felicidade da quietude. Contra o temível mundo externo, só podemos
defender-nos por algum tipo de afastamento dele, se pretendermos solucionar a tarefa
por nós mesmos.
Há, é verdade, outro caminho, e melhor: o de tornar-se membro da
comunidade humana e, com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência,
passar para o ataque à natureza e sujeitá-la à vontade
humana. Trabalha-se então com
todos para o bem de todos.
Contudo, os métodos mais interessantes de evitar o
sofrimento são os que procuram influenciar o nosso próprio organismo. Em última
análise, todo sofrimento nada mais é do que sensação; só existe na medida em que o
sentimos, e só o sentimos como conseqüência de certos modos pelos quais nosso organismo
está regulado.O mais grosseiro, embora também o mais eficaz, desses métodos de
influência é o químico: a intoxicação. Não creio que alguém compreenda inteiramente o
seu mecanismo; é fato, porém, que existem substâncias estranhas, as quais,
quando presentes no sangue ou nos tecidos, provocam em nós, diretamente, sensações
prazerosas, alterando, também, tanto as condições que dirigem nossa sensibilidade, que
nos tornamos incapazes de receber impulsos desagradáveis. Os dois efeitos
não só ocorrem de modo simultâneo, como parecem estar íntima e mutuamente
ligados.
No entanto, é possível que haja substâncias na química de nossos próprios corpos
que apresentem efeitos semelhante pois conhecemos pelo menos um estado
patológico, a mania, no qual uma condição semelhante à intoxicação surge sem
administração de qualquer droga intoxicante.
Além disso, nossa vida psíquica
normal apresenta oscilações entre uma liberação de prazer relativamente fácil e
outra comparativamente difícil, paralela à qual ocorre uma receptividade, diminuída ou
aumentada, ao desprazer. É extremamente lamentável que até agora esse
lado tóxico dos processos mentais tenha escapado ao exame científico. O serviço
prestado pelos veículos intoxicantes na luta pela felicidade e no afastamento da desgraça é
tão altamente apreciado como um benefício, que tanto indivíduos quanto povos lhes
concederam um lugar permanente na economia de sua libido. Devemos a tais veículos
não só a produção imediata de prazer, mas também um grau altamente desejado de
independência do mundo externo, pois sabe-se que, com o auxílio desse ‘amortecedor
de preocupações’, é possível, em qualquer ocasião, afastar-se da pressão da
realidade e encontrar refúgio num mundo próprio, com melhores condições de
sensibilidade.
Sabe-se igualmente que é exatamente essa propriedade dos intoxicantes que
determina o seu perigo e a sua capacidade de causar danos. São responsáveis, em
certas circunstâncias, pelo desperdício de uma grande quota de energia que poderia ser
empregada para o aperfeiçoamento do destino humano.
A complicada estrutura de nosso
aparelho mental admite, contudo, um grande número de outras influências.
Assim como a satisfação do instinto equivale para nós à felicidade, assim também um grave
sofrimento surge em nós, caso o mundo externo nos deixe definhar, caso se
recuse a satisfazer nossas necessidades.
Podemos, portanto, ter esperanças de nos libertarmos
de uma parte de nossos sofrimentos, agindo sobre os impulsos instintivos. Esse
tipo de defesa contra o sofrimento se aplica mais ao aparelho sensorial; ele procura
dominar as fontes internas de nossas necessidades. A forma extrema disso é ocasionada
pelo aniquilamento dos instintos, tal como prescrito pela sabedoria do mundo peculiar
ao Oriente e praticada pelo ioga. Caso obtenha
êxito, o indivíduo, é verdade,
abandona também todas as outras atividades: sacrifica a sua vida e, por outra via, mais
uma vez atinge apenas a felicidade da quietude.
Seguimos o mesmo caminho quando
os nossos objetivos são menos extremados e simplesmente tentamos controlar
nossa vida instintiva. Nesse caso, os elementos controladores são os agentes
psíquicos superiores, que se sujeitaram ao princípio da realidade. Aqui, a meta da
satisfação não é, de modo algum, abandonada, mas garante-se uma certa proteção
contra o sofrimento no sentido de que a não-satisfação não é tão penosamente sentida no
caso dos instintos mantidos sob dependência como no caso dos instintos
desinibidos.
Contra isso, existe uma inegável diminuição nas potencialidades de satisfação. O
sentimento de felicidade derivado da satisfação de um selvagem impulso instintivo não
domado pelo ego é incomparavelmente mais intenso do que o derivado da satisfação
de um instinto que já foi domado. A irresistibilidade dos instintos perversos e,
talvez, a atração geral pelas coisas proibidas encontram aqui uma explicação econômica.
Outra técnica para afastar o
sofrimento reside no emprego dos deslocamentos de libido que nosso aparelho
mental possibilita e através dos quais sua função ganha tanta flexibilidade. A tarefa
aqui consiste em reorientar os objetivos instintivos de maneira que eludam a frustração
do mundo externo. Para isso, ela conta com a
assistência da sublimação dos
instintos. Obtém-se o máximo quando se consegue intensificar suficientemente a
produção de prazer a partir das fontes do trabalho psíquico e intelectual. Quando
isso acontece, o destino pouco pode fazer contra nós. Uma satisfação desse tipo, como,
por exemplo, a alegria do artista em criar, em dar corpo às suas fantasias, ou a do
cientista em solucionar problemas ou descobrir verdades, possui uma qualidade
especial que, sem dúvida, um dia poderemos caracterizar em termos
metapsicológicos.
Atualmente, apenas de forma figurada podemos dizer que tais satisfações
parecem ‘mais refinadas e mais altas’. Contudo, sua intensidade se revela muito
tênue quando comparada com a que se origina da satisfação de impulsos
instintivos grosseiros e primários; ela não convulsiona o nosso ser físico. E o ponto fraco desse
método reside em não ser geralmente aplicável, de uma vez que só é acessível a
poucas pessoas. Pressupõe a posse de dotes e disposições especiais que, para qualquer fim
prático, estão longe de serem comuns. E mesmo para os poucos que os possuem, o
método não proporciona uma proteção completa contra o sofrimento. Não cria uma armadura
impenetrável contra as investidas do destino e habitualmente falha quando a
fonte do sofrimento é o próprio corpo da pessoa.
Enquanto esse procedimento
já mostra claramente uma intenção de nos tornar independentes do mundo externo
pela busca da satisfação em processos psíquicos internos, o procedimento seguinte
apresenta esses aspectos de modo ainda mais intenso. Nele, a distensão do
vínculo com a realidade vai mais longe; a satisfação é obtida através de ilusões,
reconhecidas como tais, sem que se verifique permissão para que a discrepância entre elas e a
realidade interfira na sua fruição. A região onde essas ilusões se originam é a
vida da imaginação; na época em que o desenvolvimento do senso de realidade se efetuou,
essa região foi expressamente isentada das exigências do teste de realidade e posta de
lado a fim de realizar desejos difíceis de serem levados
a termo. À frente das satisfações
obtidas através da fantasia ergue-se a fruição das obras de arte, fruição que, por
intermédio do artista, é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores. As
pessoas receptivas à influência da arte não lhe podem atribuir um valor alto
demais como fonte de prazer e consolação na vida. Não obstante, a suave narcose a que a
arte nos induz, não faz mais do que ocasionar um afastamento passageiro das
pressões das necessidades vitais, não sendo suficientemente forte para nos
levar a esquecer a aflição real.
Um outro processo opera de modo
mais energético e completo. Considera a realidade como a única inimiga e
a fonte de todo sofrimento, com a qual é impossível viver, de maneira que, se
quisermos ser de algum modo felizes, temos de romper todas as relações com ela. O eremita
rejeita o mundo e não quer saber de tratar com ele.
Pode-se, porém, fazer mais do que
isso; pode-se tentar recriar o mundo, em seu lugar construir um outro mundo, no qual
os seus aspectos mais insuportáveis sejam eliminados e substituídos por
outros mais adequados a nossos próprios desejos. Mas quem quer que, numa atitude de
desafio desesperado, se lance por este caminho em busca da felicidade, geralmente
não chega a nada. A realidade é demasiado forte para ele. Torna-se um louco; alguém
que, a maioria das vezes, não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar real o seu
delírio.
Afirma-se, contudo, que cada um de nós se comporta, sob determinado
aspecto, como um paranóico, corrige algum aspecto do mundo que lhe é insuportável pela
elaboração de um desejo e introduz esse delírio na realidade. Concede-se especial
importância ao caso em que a tentativa de obter uma certeza de felicidade e uma
proteção contra o sofrimento através de um remodelamento delirante da
realidade, é efetuada em comum por um considerável número de pessoas. As religiões
da humanidade devem ser classificadas entre os delírios de massa desse tipo. É
desnecessário dizer que todo aquele que partilha um delírio jamais o reconhece como
tal.
Não pretendo ter feito uma
enumeração completa dos métodos pelos quais os homens se esforçam para conseguir
a felicidade e manter afastado o sofrimento; sei também que o material poderia ter
sido diferentemente disposto. Ainda não mencionei um processo – não por
esquecimento, mas porque nos interessará mais tarde, em relação a outro
assunto. E como se poderia esquecer, entre todas as outras, a técnica da arte de viver? Ela
se faz visível por uma notável combinação de aspectos característicos. Naturalmente,
visa também a tornar o indivíduo independente do Destino (como é melhor chamá-lo)
e, para esse fim, localiza a satisfação em processos mentais internos, utilizando, ao
proceder assim, a deslocabilidade da libido que já
mencionamos.Mas ela não volta as costas ao mundo externo; pelo contrário, prende-se aos objetos
pertencentes a esse mundo e obtém felicidade de um relacionamento emocional com
eles. Tampouco se contenta em visar a uma fuga do desprazer, uma meta, poderíamos
dizer, de cansada resignação; passa por ela sem lhe dar atenção e se aferra ao
esforço original e apaixonado em vista de uma consecução completa da felicidade. Na
realidade, talvez se aproxime mais dessa meta do que qualquer outro método.
Evidentemente, estou falando da modalidade de vida que faz do amor o centro de tudo, que
busca toda satisfação em amar e ser amado. Uma atitude psíquica desse tipo chega
de modo bastante natural a todos nós; uma das formas através da qual o amor se
manifesta – o amor sexual – nos proporcionou nossa mais intensa experiência de uma
transbordante sensação de prazer, fornecendo-nos assim um modelo para nossa busca
da felicidade. Há, porventura, algo mais natural do que persistirmos na busca da
felicidade do modo como a encontramos pela primeira vez? O lado fraco dessa
técnica de viver é de fácil percepção, pois, do
contrário, nenhum ser humano
pensaria em abandonar esse caminho da felicidade por qualquer outro. É que nunca
nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão
desamparadamente infelizes como quando perdemos o
nosso objeto amado ou o seu amor.
Isso, porém, não liquida com a técnica de viver baseada no valor do amor como um
meio de obter felicidade. Há muito mais a ser dito a respeito.
Daqui podemos passar à
consideração do interessante caso em que a felicidade na vida é predominantemente
buscada na fruição da beleza, onde quer que esta se apresente a nossos sentidos e a
nosso julgamento – a beleza das formas e a dos gestos humanos, a dos objetos naturais e
das paisagens e a das criações artísticas e mesmo científicas. A atitude estética
em relação ao objetivo da vida oferece muito pouca proteção contra a ameaça do
sofrimento, embora possa compensá-lo bastante. A fruição da beleza dispõe de uma
qualidade peculiar de sentimento, tenuemente intoxicante. A beleza não conta
com um emprego evidente; tampouco existe
claramente qualquer necessidade
cultural sua. Apesar disso, a civilização não pode dispensá-la. Embora a ciência da
estética investigue as condições sob as quais as coisas são sentidas como belas, tem sido
incapaz de fornecer qualquer explicação a respeito
da natureza e da origem da
beleza, e, tal como geralmente acontece, esse insucesso vem sendo escamoteado sob um
dilúvio de palavras tão pomposas quanto ocas. A psicanálise, infelizmente, também
pouco encontrou a dizer sobre a beleza. O que parece certo é sua derivação do
campo do sentimento sexual. O amor da beleza parece um exemplo perfeito de um impulso
inibido em sua finalidade.’Beleza’ e ‘atração’ são, originalmente, atributos do
objeto sexual. Vale a pena observar que os próprios
órgãos genitais, cuja visão é
sempre excitante, dificilmente são julgados belos; a qualidade da beleza, ao
contrário, parece ligar-se a certos caracteres sexuais secundários.
A despeito da deficiência de
minha enumeração, aventurar-me-ei a
algumas observações à guisa de
conclusão para nossa investigação. O programa de tornar-se feliz, que o princípio
do prazer nos impõe,ver, não pode ser realizado; contudo, não devemos – na
verdade, não podemos – abandonar nossos esforços de aproximá-lo da consecução, de uma
maneira ou de outra. Caminhos muito diferentes podem ser tomados nessa direção,
e podemos conceder prioridades quer ao aspecto positivo do objetivo, obter
prazer, quer ao negativo, evitar o desprazer. Nenhum desses caminhos nos leva a tudo o
que desejamos. A felicidade, no reduzido sentido em que a reconhecemos como possível,
constitui um problema da economia da libido do
indivíduo. Não existe uma regra
de ouro que se aplique a todos: todo homem tem de descobrir por si mesmo de que
modo específico ele pode ser salvo. Todos os tipos de diferentes fatores operarão a fim
de dirigir sua escolha. É uma questão de quanta
satisfação real ele pode esperar
obter do mundo externo, de até onde é levado para tornar-se independente dele, e,
finalmente, de quanta força sente à sua disposição para alterar o mundo, a fim de
adaptá-lo a seus desejos. Nisso, sua constituição psíquica desempenhará papel
decisivo, independentemente das circunstâncias externas. O homem
predominantemente erótico dará preferência aos seus relacionamentos emocionais com
outras pessoas; o narcisista que tende a ser auto-suficiente, buscará suas satisfações
principais em seus processos mentais internos; o homem de ação nunca abandonará o
mundo externo, onde pode testar sua força.
Quanto ao segundo desses tipos, a
natureza de seus talentos e a parcela de sublimação instintiva a ele aberta decidirão
onde localizará os seus interesses. Qualquer escolha levada a um extremo condena o
indivíduo a ser exposto a perigos, que surgem caso uma técnica de viver, escolhida
como exclusiva, se mostre inadequada. Assim como o negociante cauteloso evita
empregar todo seu capital num só negócio, assim também, talvez, a sabedoria popular nos
aconselhe a não buscar a totalidade de nossa satisfação numa só aspiração. Seu
êxito jamais é certo, pois depende da convergência de muitos fatores, talvez mais do
que qualquer outro, da capacidade da constituição psíquica em adaptar sua função ao
meio ambiente e então explorar esse ambiente em vista de obter um rendimento de
prazer. Uma pessoa nascida com uma constituição instintiva especialmente
desfavorável e que não tenha experimentado corretamente a transformação e a redisposição de
seus componentes libidinais indispensáveis às realizações posteriores, achará
difícil obter felicidade em sua situação externa,em especial se vier a se defrontar
com tarefas de certa dificuldade. Como uma última técnica de vida, pelo que menos
lhe trará satisfações substitutivas, é-lhe oferecida a fuga para a enfermidade
neurótica, fuga que geralmente efetua quando ainda é jovem. O homem que, em anos
posteriores, vê sua busca da felicidade resultar em nada ainda pode encontrar consolo
no prazer oriundo da intoxicação crônica, ou então se empenhar na desesperada
tentativa de rebelião que se observa na psicose.
A religião restringe esse jogo de
escolha e adaptação, desde que impõe igualmente a todos o seu próprio
caminho para a aquisição da felicidade e da proteção contra o sofrimento. Sua técnica
consiste em depreciar o valor da vida e deformar o quadro do mundo real de maneira
delirante – maneira que pressupõe uma
intimidação da inteligência. A
esse preço, por fixá-las à força num estado de infantilismo psicológico e por
arrastá-las a um delírio de massa, a religião consegue poupar a muitas pessoas uma
neurose individual. Dificilmente, porém, algo mais.
Existem, como dissemos, muitos
caminhos que podem levar à felicidade passível de ser atingida pelos homens, mas nenhum
que o faça com toda segurança. Mesmo a religião não consegue manter sua promessa.
Se, finalmente, o crente se vê obrigado a falar dos ‘desígnios inescrutáveis’ de
Deus, está admitindo que tudo que lhe sobrou, como último consolo e fonte de prazer
possíveis em seu sofrimento, foi uma submissão incondicional. E, se está
preparado para isso, provavelmente poderia ter-se poupado o détour que efetuou.
("O Mal-Estar Na Civilização" - Sigmund Freud)
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
Esse cara é hoje um dos maiores filósofos vivos no Brasil. Já disse que esse cara é muito bom. (e fuma pra cacete). Assista alguns dos seus vídeos no youtube.
"ESSE PAÍS É UM PAÍS ONDE PARECE QUE ESTÁ TODO MUNDO BÊBADO OU DROGADO" - Olavo de Carvalho, filósofo, professor e escritor
A miséria intelectual no Brasil chegou a um nível patológico:
http://www.youtube.com/watch?v=6EyxOL0l_W8
Brasil, um País de Ignorantes - USP é a 232ª do Mundo - Olavo de Carvalho:
http://www.youtube.com/watch?v=S7VYB_Orklg
http://www.youtube.com/watch?v=PPL_iGg8P7Y
Olavo de Carvalho explica a destruição da família:
http://www.youtube.com/watch?v=TzS5jUGW_kA
O BRAZIL MORREU !!!!
http://www.youtube.com/watch?v=8Jsibiz_L8E
(08/11/2010) Existe contradição entre ser maçônico e católico?
http://www.youtube.com/watch?v=OZsnEQYP93Y
Quem é Lula (12-10-2011)
http://www.youtube.com/watch?v=LteF26pZaDo
Olavo de Carvalho - Quem é o palhaço? Tiririca?
http://www.youtube.com/watch?v=23avDsuT8YM
Perfil do Brasileiro por Olavo de Carvalho
http://www.youtube.com/watch?v=uTw0G0jQxT0
Quem é Arnaldo Jabor
http://www.youtube.com/watch?v=sbTqaxNrCBA
sábado, 12 de janeiro de 2013
A pergunta filosófica mais profunda para qual esta humanidade ainda não encontrou a resposta é: Por que é que eu existo? Quem fez com que eu existisse? Por que eu existo do modo que existo? Eu não me recordo de ter pedido para existir, no entanto, existo, sou obrigado a existir.
E se a gente não se estruturar de alguma forma esse mundo em que vivemos me parece mais um palco de horrores por causa das nossas atitudes como raça humana.
E se a gente não se estruturar de alguma forma esse mundo em que vivemos me parece mais um palco de horrores por causa das nossas atitudes como raça humana.
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
DEUS SIMPLESMENTE É!
Quem estuda magia, estuda ou sabe da Lei de Causa e Efeito, sabe que tudo que fizer voltará igual ou
potencializado por três vezes, e sabe também que a “energia fundamental”
que permeia o universo, não possui polaridade.
Pessoas de índole ruim
buscam guias e feitiços para conseguir o que deseja a qualquer custo.
Sempre se encontra quem ajude na espiritualidade, tanto pro bem quanto
pro mal.
Mas quando ela começa a obrigatoriamente colher o que plantou,
em sua ignorância ela dirá que o mal que esta sofrendo é o diabo, e pode
se converter imediatamente a uma igreja. Isso é a prova cabal da sua
ignorância e covardia, mas tudo bem, pois se ela ainda esta na
ignorância, ainda não pode responder PLANEMENTE, mas responderá, e não é CASTIGO DE DEUS,
nem muito menos o capeta...
A semeadura é livre! É fácil ter a
infelicidade de estar zapiando canais de tv e descobrir um programa
religioso onde pessoas pobres de espírito dizem que serviram ao demônio
por anos e agora estão salvos. Mas ela nunca diz as maldades que fez e
mesmo que diga, não estará ciente da Lei de Causa e Efeito.
Pra
mim, o mago é isso. Um ser ciente. Uma pessoa a qual a ignorância não é
mais desculpa, e ele sabe de que lado está, seja na luz ou não. Se esse
ser se tornou consciente da sua realidade divina, e da unidade que tem
com o todo, obviamente ele se encontra livre e capaz de direcionar a
energia fundamental. Vós sois deuses!
Estou
ciente de que só existe um Deus, porém, sei que sou sua manifestação
assim como você, e até mesmo o computador em nossa frente nesse momento.
Não há fronteiras, não há distâncias tudo é uma única coisa e tudo é
energia.
Você pode achar isso
meio “Einsteniano” ou pode achar que isso tudo é o mesmo que rezar para
lei da gravidade se quiser levar a idéia a um oposto negativo do que ela
é, mas essa visão na verdade é a mesma de toda religião que existe, e
mesmo para quem não tem religião nenhuma.
Deus simplesmente É!
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
SEJA UM ANDARILHO
Procure por todas as alternativas possíveis, mova-se em todas as direções, seja um andarilho, um andarilho no mundo da vida e da existência.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
AMAR VERBO INTRANSITIVO
Amar pra mim é essencialmente um verbo intransitivo, nós simplesmente amamos, não amamos o que ou quem.
Na minha fé é impossível ser feliz sem amar, mas não somos capazes de nos conectar a esse Amor diretamente, ele é muito sublime e etéreo para a nossa brutalidade. Precisamos de canais para alcançá-lo, que são simbolizados através de algum objeto, concreto ou abstrato.
O grande canal do sacerdote é a prece; o do monge budista é a meditação; o da mãe são os filhos; o do heremita é a liberdade; o do misantropo é, por exemplo, a natureza; o da maioria das pessoas são os amigos e por aí vai. Para aquele que refuta todos esses, ainda há o amor-próprio, nosso canal primordial. Sem esse último a vida perde o seu sentido.
Logo, cada um de nós deve buscar os seus canais, pois é através deles que amamos !
(Significado de Misantropo: adj. e s.m. Que ou aquele que tem aversão à sociedade dos homens, que aborrece a companhia humana. Homem melancólico.)
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
MINHA ALMA RESPONDEU...
Mestre,
ENVIEI MINHA ALMA ATRAVÉS DO INVISÍVEL PARA SOLETRAR ALGUMA CARTA DESTE PÓS VIDA, MAS DE REPENTE ELA VOLTOU PARA MIM E RESPONDEU: EU MESMA SOU O CÉU E O INFERNO.
ENVIEI MINHA ALMA ATRAVÉS DO INVISÍVEL PARA SOLETRAR ALGUMA CARTA DESTE PÓS VIDA, MAS DE REPENTE ELA VOLTOU PARA MIM E RESPONDEU: EU MESMA SOU O CÉU E O INFERNO.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
FERNANDO PESSOA E DEUS
Comunicação às Jornadas Culturais / Literárias 2000 «Imagens de Deus na Literatura Portuguesa nos séc.XIX e XX» – Auditório da Escola Superior de Tecnologia e Gestão – Leiria, 15 e 16 de Março de 2001
por Amélia Pinto Pais
da Escola Secundária de Francisco Rodrigues Lobo, de Leiria
«Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas.
Nós perdemos essa, e às outras também.
Ficámos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objecto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontrámo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.
Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma ideia do futuro, também não temos uma ideia de hoje, porque o hoje, para o homem de acção, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta connosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta.(....)
(...). O que vivemos foi em negação, em descontentamento e em desconsolo. Mas vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no género de vida, entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares.
(frag.195)
Ao aceitar abordar a questão religiosa em Fernando Pessoa, a pedido do meu amigo e colega Dr. António Gordo, da Comissão Científica destas Jornadas, não pude deixar de colocar-lhe e de me colocar algumas reservas e perplexidades face ao tema proposto.
É que, em primeiro lugar, e sem negar a importância que têm os conteúdos e linhas de sentido de um texto, o meu apreço pela obra de Pessoa se faz sobretudo do ponto de vista estritamente literário /poético e não do ponto de vista dos conteúdos ideológicos / filosóficos que encerra («Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas», escrevia ele, por volta de 1910); por outro lado, sentia confusamente, do pouco de que me pudera aperceber até aí, que o problema de saber até que ponto Fernando Pessoa era um homem religioso, ele que se confessou uma vez, em 1935,em Nota Biográfica, «cristão gnóstico», ele que em tanto eus diferentes se projectara e se fizera poeticamente, ele que se quisera também um «indisciplinador de almas» — era tarefa algo ingente para o pouco tempo disponível que era o meu, tarefa mais adequada a uma tese de doutoramento em vários volumes e a preparar durante alguns anos.
Sentia também, e verifiquei-o posteriormente quando meti mãos à obra, que não era muita a bibliografia existente sobre esta complicada problemática. Assim:— como iria eu descobrir em tão pouco tempo o Pessoa nos vários Pessoa(s)? No Pessoa Caeiro, António Mora, Ricardo Reis, adeptos de teorias visando a reconstrução de um neo-paganismo de base helénica, mas também no Pessoa ortónimo de poemas simbolistas e quase místicos (alguns esotéricos e iniciáticos) e num Pessoa-Campos de poemas igualmente quase místicos como os Dois excertos de Odes, o Magnificat ou o «Afinal a melhor maneira de viajar é sentir»? E o Pessoa de Mensagem? – o do «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce», o do misticismo nacionalista corporizado no mito (que «é o nada que é tudo») de D.Sebastião, o «Encoberto», adivinhado por Bandarra ou António Vieira, o da «divina loucura», sagrado, como o Infante Santo ou o Infante D.Henrique, por Deus, para ser portador do Sonho construtor de Quintos Impérios ainda não concretizados?
De um desafio se tratava, pois, para mim, o de tentar encontrar pelo menos esboço de resposta para tantas interrogações. É desse esboço de resposta que trago, hoje e aqui, as linhas principais e as muitas interrogações que, certamente no final, vos ficarão.
Vejam-no apenas como esboço, como uma introdução ao problema.
Vou seguir de perto o que pude aprender na pouca bibliografia específica existente e, principalmente, em António Quadros, Fernando Pessoa-Vida, personalidade e génio (ed. D.Quixote, Lisboa, 2ªed.,1984), em Dalila Pereira da Costa, O Esoterismo em Fernando Pessoa (ed.Lello & Irmão, Porto, 2ªed.,1978), em alguns capítulos de Teresa Rita Lopes in «Pessoa por conhecer»(Estampa, Lisboa, 1990) e nos estudos de Yvette Centeno, ligados igualmente às questões do esoterismo, hermetismo e iniciação na poesia de Pessoa.E também, naturalmente, da minha reflexão pessoal. E, principalmente ainda, na minha interrogação inacabada.
Algumas coordenadas para o conhecimento de Fernando Pessoa:
Fernando Pessoa foi baptizado e educado em criança dentro dos parâmetros da religião católica; existe um documento dele, datado de 1907 (tinha o poeta 19 anos), dirigido ao pároco da freguesia em que fora baptizado, em que contesta o facto de o terem baptizado quando «ainda ente irracional», obrigando-o «a fazer parte de uma associação demasiado humana com as teorias da qual o seu raciocínio mais viril talvez não queira concordar»; no mesmo documento considerava a igreja católica «poderosa e estúpida, sustentando a velha hipótese d’um Deus criador, eminentemente estúpido e eminentemente mau»
2..2. Em 1915, em carta dirigida em 6 de dezembro a Mário de Sá Carneiro, confessava- se em crise profunda, derivada de ter tido que traduzir várias obras de teosofia. Cito:
«Tive de traduzir livros teosóficos. Eu nada, absolutamente nada, conhecia do assunto. Agora, como é natural, conheço a essência do sistema. Abalou-me a um ponto que eu julgaria hoje impossível, tratando-se de qualquer sistema religioso. O carácter extraordinariamente vasto desta religião-filosofia; a noção de força, de domínio, de conhecimento superior e extrao-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito. Cousa idêntica me acontecera há muito tempo com a leitura de um livro ingçês sobre Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz. A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me "hante".(-...)
E mais adiante: « Ora, se V.meditar que a teosofia é um sistema ultra-cristão — no sentido de conter os princípios cristãos elevados a um ponto onde se fundem não sei em que além-Deus e pensar no que há de fundamentalmente incompatível com o meu paganismo essencial, V. terá o primeiro elemento grave que se acrescentou à minha crise. Se depois reparar em que a Teosofia, porque admite todas as religiões, tem um carácter inteiramente parecido com o do paganismo, que admite no seu panteão todos os deuses, V. terá o segundo elemento grave da minha crise de alma. A Teosofia apavora-me pelo seu mistério e pela sua grandeza ocultista, repugna-me pelo seu humanitarismo e apostolismo (...), atrai-me por se parecer tanto com um «paganismo transcendental (...) É o horror e a atracção do abismo realizados no além-alma...»
Convém esclarecer aqui que a teosofia, literalmente «sabedoria divina» ou «dos deuses» é uma teoria que se situa como síntese de filosofia, religião e ciência, apelando para a intuição e faculdades não racionais e declarando a identidade do Homem com a Realidade e o seu consequente poder de conhecer a Finalidade, a Meta, que se chama Deus.
Vários intelectuais europeus do tempo de Pessoa se deixaram tocar por esta teoria, reactivada sobretudo a partir da actividade de Helena Blavatsky, uma das fundadoras e principal expoente da Sociedade Teosófica em Nova Iorque, em 1875. Fernando Pessoa traduziu, entre outras obras teosóficas, A Voz do Silêncio, obra essencial de Blavatsky. No entanto, a teosofia vem de muito antes e, nomeadamente de Platão e Plotino, para não falar das diversas correntes místicas e do próprio idealismo alemão.
2.3. Também por essa altura, em célebre carta à tia Anica, confessa sentir-se com características de mediunidade e desenvolve práticas de espiritismo, reveladoras, juntamente com o interesse pela teosofia, pelos Rosa-Cruzes e o seu gosto e prática da numerologia e da astrologia, o seu pendor para o oculto, que viria a aprofundar-se nos anos finais da sua vida.
Em 1935, ou seja, no último ano da sua vida, confessa-se, na já referida Nota biográfica, no ponto Posição religiosa: «Cristão gnóstico, e portanto, inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Cabala) e com a essência oculta da Maçonaria» e «Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal»
Compreende-se a sua autodefinição como gnóstico, dado pretender ser a a gnose o conhecimento esotérico e perfeito da divindade, que se transmite por meio da tradição e mediante rituais de iniciação. Tal iniciação tê-la-á conseguido o poeta não pela sua integração na Maçonaria ou noutras associações secretas e ocultistas, mas pela reflexão e estudo e pela experiência poética , que, segundo Jung « aflora de regiões profundas da alma, salutares e benéficas, preexistentes à segregação das consciências individuais, e que, a partir desse regaço colectivo, seguiram os seus passos dolorosos. Brota dessas regiões onde todos os seres vibram ainda, em uníssono, e onde consequentemente a sensibilidade e a acção do indivíduo valem para toda a humanidade.»
Como última destas coordenadas, em carta do mesmo ano a Adolfo Casais Monteiro, diz-se não mação e opina sobre o Ocultismo, dizendo «não acreditar na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir-nos comunicando com seres cada vez mais altos»; define também, na mesma carta, 3 caminhos para o Oculto, o mágico, o místico e o alquímico, considerando o último «o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara».
Um conhecimento contemplativo de Deus:
Traçadas as coordenadas principais, a nível do pensamento religioso de Fernando
Pessoa, pondo, para já, de parte a longa teorização e defesa do Neopaganismo português, atentemos nalguns textos reveladores daquilo que podemos considerar ser o seu percurso poético /religioso, na busca do Conhecimento ou Gnose:
Por volta de 1912, tinha o poeta então 24 anos, e no mesmo ano em que publicava na «Águia» os seus primeiros artigos sobre a moderna poesia portuguesa, surge-nos um texto belíssimo intitulado «Prece» que passo a transcrever:
Prece:
«Senhor, que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo estás - (o teu templo) - eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
[...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.» -
Este texto, em que António Quadros encontra, a meu ver com razão, ecos do Hino ao Sol do faraó monoteísta Akhenaton e afinidades com os cantos de S.Francisco de Assis, marca, segundo o mesmo autor, o «1ºmarco de uma longa e árdua peregrinação», revelando «toda uma vivência interior de transcendência que reúne a visão do ser humano, entre o animal e o espiritual».Nele é visível «uma enorme exigência de pureza e de Absoluto, um sentimento de adoração, a consciência profunda da vanidade egolátrica, um desejo de entrega e de abandono no divino», traduzindo, igualmente, «o efeito de uma experiência íntima, secreta.»
Pouco depois desta «Prece», em 1913, tinha então 25 anos, parece o Poeta ter tido uma primeira experiência de revelação, de êxtase quase místico, como afirma Quadros. Trata- - se do poema em 5 partes, Além-Deus. Na 1ªparte,
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é ser rio e correr?
O que é está-lo eu a ver?
Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — e o mundo em seu redor —
Fica mais que exterior.
Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, ideia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...
E súbito encontro Deus..
a realidade visível do Tejo e do olhar o Tejo some-se, abre-se para o invisível, o vácuo, como ele diz,«súbito», «de repente» , condição em que como numa aparição «súbito encontr(a) Deus». Todos podemos reconhecer nesta experiência relatada poeticamente ecos da «noite escura da alma» do poeta místico espanhol S.Juan de La Cruz...
Na 2ºparte de Além-Deus, o poeta procura explicar como tudo se passara: Passou (título da 2ªparte): «Passou, fora de Quando,/De Porquê, e de Passando...»; na 3ªparte, intitulada A Voz de Deus, reconhece na percepção do indizível, a fusão total do Eu e do universo a partir da audição da voz de Deus:
«Brilha uma voz na noute..
De dentro de Fora ouvi-a .
Ó Universo, eu sou-te..../»
E mais adiante:
«Cinza de ideia e de nome
Em mim, e a voz: Ó mundo,
Sermente em ti eu sou-me...
Mero eco de mim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que pra Deus me afundo.»
Este inundar-se em Deus equivale à Queda (título do 4ºpoema da série)
«Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Se ter Eu nem Ali.»
Tal queda/mergulho no inefável, no indizível é o encontro do Além-Deus.
«Além-Deus! Além Deus! Negra calma ..
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...»
O 5º e último poema, de título de ressonância esotérica ( e surrealista) – Braço sem corpo brandindo um Gládio – «é o regresso à realidade quotidiana, lugar da dúvida, da interrogação, do espanto, da incapacidade de aferir, pela razão humana, aquilo que por instantes envolveu o ser inteiro, deixando atrás de si um sentimento de irrealidade» — conclui assim o poema:
«Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me...»
Em 1914, nova série de poemas— Os Passos da Cruz (curiosa a imagística que é a mesma da Paixão de Cristo – atingir o saber, o conhecimento, será cumprir, como em qualquer ritual iniciático, os passos da cruz em subida a um qualquer Calvário? Será a queda necessária ao atingir do Graal, da revelação?)– a morte de «anima». Trata-se, como sabemos, de uma série de 14 sonetos, de que convém destacar os sonetos X —
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
os sonetos XI e XIII, em que o Poeta se vê como emissário, simples executor de algo que lhe é ditado (por quem? – por oculta mão? , por um rei desconhecido?) de reminiscências notoriamente neoplatónicas
XI
Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-
- se...
E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...
XIII
Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido...
Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido...
Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...
Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...
O último poema da série termina com «E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo»
Vejamos:
Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), para além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
Para o mistério, silêncio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...
Pessoa parece reconhecer em Deus a meta – em carta a Armando Cortes Rodrigues, datada de 19.1.1915, escrevia: «você é, como eu, fundamentalmente um espírito religioso» e mais adiante, referindo-se à solidão de sentir alguém que se «adiantou de mais aos companheiros de viagem » a viagem que, segundo diz, acha«tão grave» porque é uma viagem «entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores...e Deus, fim da estrada infinita, à espera no silêncio da Sua grandeza...»
Podemos então talvez concluir como Quadros e Dalila Pereira da Costa, que entre 1912 e 1915 o Poeta, reconhecendo-se explicitamente como «espírito religioso» terá tido uma experiência de conhecimento contemplativo, quase de contacto místico, não racional, portanto, com o grande Intervalo, com Deus. Só bastante mais tarde, a partir de 1932, tal experiência viria a repetir-se, como veremos.
A busca da unidade perdida: o neopaganismo / Mestre Caeiro
Nos anos seguintes, foi a vez da uma busca de respostas outras ao problema: —
sou múltiplo, sou plural como o Universo.- Como reencontrar a Unidade perdida? Como ultrapassar o conflito /divisão entre o que sou e o que me sonho, entre o que sonho e o que faço, entre «a lealdade que devo /À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora/E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro»?
Penso que esta terá sido porventura a questão fundamental de Pessoa e dos seus «desassossegos» existenciais...
É este o período fecundo das tentativas neopagãs (e de toda a teoria do neopaganismo português – uma «Igreja» de que se fazem eco e «evangelistas» o filósofo António Mora, mas também Ricardo Reis e o próprio Pessoa).Nessa nova Igreja , Cristo é apenas mais um deus no panteão e como tal aceite por Reis; o que é intolerável é que os cristãos o afirmem como único; se a natureza é plural, como conceber um panteão que não o seja?. Cristo, a existir, será o Deus- Criança, a «Criança Nova», a «Criança eterna» do Poema VIII de O Guardador de Rebanhos de Caeiro (ele próprio, o Mestre, o que «não era pagão, era o paganismo», segundo o discípulo porventura mais amado e mais rebelde, Campos) – a criança surgida em sonho, fugida do Céu e das roupagens míticas de que o revestiram, e vindo morar na casa do Outeiro /«adormecendo» na alma do Poeta, não sem antes o ter ensinado a ver — e se ter comportado como criança:
«Esta é a história do meu Menino Jesus – conclui o poeta - Por que razão que se perceba/Não há-de ser ela mais verdadeira/Que tudo quanto os filósofos pensam /E tudo quanto as religiões ensinam?»
O mesmo Menino Jesus-Caeiro, que afirma não acreditar em Deus.«Não acredito em Deus porque nunca o vi./Se ele quisesse que eu acreditasse nele,/Sem dúvida que viria falar comigo /E entraria pela minha porta dentro /Dizendo-me, Aqui estou !
Uma religião, afinal, panteísta, a deste Mestre Caeiro, que parece recusar a visão do transcendente, mas absolutiza o real como se Deus fosse tão somente o real, as coisas da natureza. Um pouco como nas filosofias orientais, mas, ainda que o não parecendo, muito próxima da visão de S. Francisco no Cântico das Criaturas....Dando a sua resposta, afinal – a da sua completa a perfeita comunhão com o real, recusando conhecê-lo pelo pensamento (afinal: pensar é não compreender, pensar é estar doente dos olhos, pensar incomoda como andar à chuva...). Poderemos, ainda aqui, falar de misticismo de outro tipo – o misticismo panteísta de fusão com a natureza; por ele Sujeito e Objecto fundem-se e encontram a Unidade.
Mas Caeiro morreu cedo, como, de certo modo, inviável era «aprender a desaprender», recuperar a inocência da criança que vê tudo como se fosse pela primeira vez ou da ceifeira e da sua alegre inconsciência de não saber como a «ciência pesa tanto e a vida é tão breve!» e por isso «canta sem razão» — e com a sua morte prematura morreu também um pouco a teoria/igreja neopagã:
— Mora, o assumidamente filósofo, reduz-se ao silêncio;
— Reis assume o seu epicurismo triste, o «colhe o dia porque és ele», o «abdica e sê rei de ti próprio», tristemente, ou antes, desconsoladamente, dando conselhos, a meu ver pouco convictos, refugiando-se num cepticismo de escola («Assim talvez os deuses / Para si o não sejam, / E só de serem do que nós maiores / Tirem o serem deuses para nós // Seja qual for o certo, / Mesmo para com esses / Que cremos serem deuses, não sejamos / Inteiros numa fé talvez sem causa») ; digamos que ele é um «pagão triste da decadência», como a última imagem que quer conservar de Lídia, sua apaixonada virtual.
— Quanto a Pessoa, o ortónimo, aquele de quem Campos diz que «seria um pagão se não fosse um novelo embrulhado para o lado de dentro» atingirá, de certo modo, confundindo - se com Campos, na parte final da vida, o êxtase que entrevira em 1912 a 1915;
— Campos será sempre, e passada a fúria sensacionista do querer ser toda a gente e toda a parte, o mais desassossegado de todos, encontrando a paz e a verdade possíveis apenas no sonho de epopeias marítimas triunfais sem sair nunca do «cais deserto», imagem e sombra do Cais absoluto e arquetípico , de reminiscência ou anamnese platónica - atingirá, porém, e talvez em resposta ao seu desassossego e à sua busca, finalmente, e de novo, a alegria de encontrar Deus, ou em todo o caso, o Sagrado e a plenitude em textos como Magnificat e no Sursum Corda! de Afinal a melhor maneira de viajar é sentir...
Como diz Dalila Pereira da Costa, «o paganismo como idade da humanidade, forma e
visão do cosmos e apreensão do mundo, ser-lhe-ia revelado e dado a participar por directa experiência pessoal, em instantes que, abolindo milénios de afastamento, tal uma prodigiosa anamnese, o poeta consignou em Dois excertos de Odes, Passagem das Horas, Afinal a melhor maneira de viajar é sentir ... Aí, pela sua intuição poética, pelo seu dom de visionário, ele teria o poder, tal como Holderlin, de realizar uma ressurreição vivida dessa idade, em toda a sua verdadeira alma, e dela participar. Aí o cosmos surgir-lhe-ia em toda a sua antiga e eterna sacralidade.»
É esse, a seu ver, o verdadeiro sentido do neopaganismo de Pessoa.Com efeito, o sentido do mistério perpassa nesses poemas, onde é visível, como nos poemas orrtónimos «Silvos ou gnomos tocam?» ou «Passos tardam na relva», em que pequenos seres míticos são pressentidos.
« Caminhos para o oculto»:
Chegamos, neste ponto, ao tratamento daquilo que Quadros designa de caminhos
para o oculto. Segundo ele, Pessoa experimentou ou tentou, melhor dizendo, três caminhos de aproximação do Mistério, tantas vezes pressentido ou entrevisto. Seriam eles o caminho gnósico da percepção e visão supranormal, da imaginação, do sonho, da mediunidade, da reminiscência anamnésica platónica, da permeabilidade ao inconsciente colectivo ou arcaico, ou das iluminações , inspirações e contactos de ordem mística. A segunda via, segundo Quadros, seria ocaminho sófico – reflexão metafísica associada à cultura erudita; depois do clarividente, o pensador, o intelectual, o erudito, o que raciocina exaustivamente. Finalmente, a via ou caminho iniciático, presente em poemas esotéricos conhecidos como Na sombra do Monte Abiegno, Do Vale montanha`,A Múmia, Iniciação, Eros Psique, No túmulo de Christian Rossencreutz. Estes poemas têm sido exaustivamente analisados, quer por Dalila Pereira da Costa, quer por Yvette Centeno, e remeto para tais estudos aprofundados os meus queridos e pacientes ouvintes.
Na sombra do Monte Abiegno
Repousei de meditar.
Vi no alto o alto Castelo
Onde sonhei de chegar.
Mas repousei de pensar
Na sombra do Monte Abiegno.
Quando fora amor ou vida,
Atrás de mim o deixei,
Quando fora desejá-los,
Porque esqueci não lembrei.
À sombra do Monte Abiegno
Repousei porque abdiquei.
Talvez um dia, mais forte
Da força ou da abdicação,
Tentarei o alto caminho
Por onde ao Castelo vão.
Na sombra do Monte Abiegno
Por ora repouso, e não.
Quem pode sentir descanso
Com o Castelo a chamar?
Está no alto, sem caminho
Senão o que há por achar.
Na sombra do Monte Abiegno
Meu sonho é de o encontrar.
Mas por ora estou dormindo,
Porque é sono o não saber.
Olho o Castelo de longe,
Mas não olho o meu querer.
Da sombra do Monte Abiegno
Que me virá desprender?
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.
Na sombra do Monte Abiegno: — o Monte Abiegno é a Montanha que une os planos terrestre e celeste, desafio ao homem que aspira pelo Absoluto. A imagem docavaleiro-monge, como a do Castelo, ambas de ressonâncias medievais, é a do cavaleiro solitário que busca «por ínvios caminhos» o seu Graal – a Verdade
Mais importante ainda é o conjunto de poemas A Múmia, também cronologicamente o primeiro destes poemas esotéricos. Segundo Yvette Centeno, assistimos nesta poesia cifrada «a um percurso espiritual, iniciático (em que se confirma a morte da alma) e a uma revelação. O poeta desce progressivamente dentro de si mesmo, separa-se de toda a realidade material e espiritual, fica reduzido à própria espinha, ao osso, à pura essência; e obtém no fim a revelação sobre a qual nada diz...»Tal percurso «é pontuado por uma absorção no Inconsciente, pela constatação da morte de Anima e pela depuração do Eu até à fixação na própria espinha, terminando de chofre com a enigmática substantivação «As espadas». As espadas equivaleria ao fogo dos filósofos, sendo também um atributo dos iniciados templários e rosa-cruzes, o que leva Centeno a interrogar-se: «Que concluir daqui? Que a revelação das espadas equivale à revelação simultânea, à «abertura, aqui» da porta do Entendimento e da beleza? Experiência que coroa a realização do homem, do poeta.»
A experiência alquímica visa, segundo Mirciade Eliade, «transmutar o homem; pela iniciação, o místico mudava de regime ontológico (fazia-se imortal). A transmutação, o opus magnum, que conduzia à pedra filosofal. obtém-se fazendo passar a matéria por 4 graus ou fases, entre as quais a nigredo e putrefactio, ou morte iniciática (....).»
Os poemas mais claramente iniciáticos de Pessoa são os já referidos «Iniciação», «No túmulo de Christian Rossencreutz» e ainda o de certo modo enigmático «Gomes Leal». Detenhamo-nos um pouco mais sobre o primeiro:
Iniciação
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
......
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
......
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
......
Neófito, não há morte.
Só despindo-se, pela desnudação, o poeta encontra a verdadeira vida/unidade: por isso, «neófito, não há morte». Para o conseguir é preciso, porém atingir o fundo do poço, da caverna onde a verdadeira vida e a verdadeira verdade, passe a redundância, se encontram.
O corpo nada mais é que invólucro pesado e obstáculo de que é necessário despojar-se.
Como escreve Dalila Pereira da Costa:
«. Aqui o neófito renasce, depurado para outra vida, nessa caverna regeneradora, centro das forças do mundo e do eu, da energia primeira: sua matriz. Novo ciclo de existência se lhe abre: a dos deuses, «pois aí vês que são teus iguais». Aqui se termina a transmutação suprema, tal outra operação alquímica, que é a morte. Por esses estados sucessivos se ultrapassou, ou largou, a natureza humana e se adquiriu a natureza celeste, matéria última, incorruptível e eterna.
Iniciação poderá ser visto semelhantemente como uma purificação, numa alquimia do corpo humano. Por essa destruição, combustão de todos os elementos acidentais, exteriores, agarrados ao seu núcleo, central e incorruptível, fazer que este por fim, liberto e único, brilhe na caverna, a última etapa do trabalho interior: como a «matéria-prima». Nesse cadilho alquímico, ela será a obtenção final do diamante incorrupto, ou «Lapis Philosophorum». O ser primordial e eterno, o que um dia caiu do infinito, e que aqui sobre a terra, é o proscrito. Fechando assim agora o círculo, este poema, como «exitus», será o segundo e complementar movimento desse outro (como linha ascensional numa mesma onda), que surgiu na sua juventude, e em semelhante ambiente de mistério iniciático: os Passos da Cruz»
Da iniciação resulta também a desgraça, a tristeza e a solidão, como parece entrever- - se no poema Por que Ó Sagrado (datado de 1932):
Por que, ó Sagrado, sobre a minha vida
Derramaste o teu verbo?
Por que há- de a minha partida
A coroa de espinhos da verdade
Antes eu era sábio sem cuidados,
Ouvia a tarde finda, entrar o gado
E o campo era solene e primitivo
Hoje no meu ser sou o escravo
Só no meu ser tenho de a ter o travo,
Estou exilado aqui e morto vivo.
Maldito o dia em que pedi a ciência!
Mais maldito o que a deu, porque me a deste!
Que é feito dessa minha inconsciência
Que a consciência, como um traje, veste?
Hoje sei quase tudo e fiquei triste...
Sei a verdade, enfim, do Ser que existe,
Prouvera a Deus que eu não soubesse tanto!
O retomar da experiência de êxtase:
Novas experiências místicas vão surgir, no entanto, a partir desse mesmo ano – e o êxtase dos primeiros tempos, de Além - Deus, surge em Magnificat, de Álvaro de Campos:
MAGNIFICAT (7-11-1933)
Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!
Trata-se, na opinião de Quadros, de «um cântico de assunção e êxtase», «momento de apaziguamento – consolado, repousado, gratificado. Porque, contemplado em êxtase, Esse lho terá concedido.» .
Confirma-se, assim, a opinião já referida de Dalila Pereira da Costa de que:
«Deus em Pessoa não é um conceito, uma noção teórica nem um ideal abstracto. Sua ideia de deus não é racional. Ele é uma realidade conhecida por experiência directa. Uma realidade eminentemente viva, como o Deus vivo da Bíblia, o mesmo que todos os grandes espirituais conheceram.(...) Não procuremos tão pouco no seu pensamento um Deus de feição moral. O seu deus é o dos contemplativos, conhecido e revelado no amor e na liberdade. A salvação aqui não é dada através dos méritos e das obras próprias, mas pela união sagrada com Deus. É nela que estará o homem justificado.»
Vemo-lo também lendo, em vésperas de Natal de 1934, e ainda com Álvaro de Campos, a 1ª Epístola aos Coríntios:
Ali não havia electricidade.
Por isso foi à luz de uma vela,mortiça
Que li, inserto na cama,
O que estava à mão para ler —
A Bíblia, em português (coisa curiosa), feita para protestantes.
E reli a «Primeira Epístola aos Coríntios».
Em torno de mim o sossego excessivo de noite de província
Fazia um grande barulho ao contrário,
Dava-me uma tendência do choro para a desolação.
A «Primeira Epístola aos Coríntios»...
Relia-a à luz de uma vela subitamente antiquíssima,
E um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim...
Sou nada...
Sou uma ficção...
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
«Se eu não tivesse a caridade.»
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma é livre...
«Se eu não tivesse a caridade..»
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!---
Em Magnificat reencontra-se Campos / Pessoa consigo mesmo, com a Unidade. Tal unidade, conseguida pelo contacto directo com o Absoluto, é também, no entender de Quadros e nosso, prosseguida e conseguida no poema «A melhor maneira de viajar é sentir».
Nele se afirma:
Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas
Quantas mais personalidades eu tiver
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir como todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a essência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é tudo,
E fora d’ Ele há só Ele, e tudo para Ele é pouco...
E mais adiante:
Cada alma é uma escada para Deus
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo para as margens do Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.
— E, se assim é, o convite:— Sursum corda!
Sursum corda! Erguei as almas!
Todo o Mistério é Espirito (...)
O Poeta, cuja alma é corredor - Universo para Deus explode em cânticos de louvor –
«reparo para ti e sou todo um hino!»
e pede:
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada trespassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti próprio sempre.
É que, afirma:
Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados e ao mesmo tempo, sou um globo
de chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o número da minha lógica
A minha inteligência limitadora e gelada.
E o poema prossegue: — Oferece-se como dinamismo poderoso, tendo integrado em si «todos os movimentos que compõem o universo, a fúria minuciosa e dos átomos, a fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos, a espuma furiosa de todos os rios» e dizendo:
«Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh’alma»
O poema termina, com o poeta dirigindo-se a essa força cósmica (Deus?) dizendo:
«Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode (...)
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida, (...)
Sobrevive-me, em minha vida, em todas as direcções!»
As questões que ficam:
E aqui está, como neste sensacionismo assumido se retoma e se esclarece, ganhando
nova luz, o «Já viram Deus as minhas sensações». de Passos da Cruz.
Concluiríamos assim que também (ou sobretudo?) a sensação é força propulsora da caminhada do cavaleiro-monge em direcção ao Monte Abiegno ou a Deus, a Grande Ogiva?
Que Caeiro – o sensacionista dos sensacionistas, o porventura talvez mais whitmaniano (indo para além do próprio Whitman, de resto) – seria também uma via para Deus, para o Absoluto, para a fundamental unidade?
São perguntas que ficam. Eu nada sei – ou quase nada. Apenas me interrogo – e interrogo; como Pessoa me sinto – ou gostaria de me sentir e ser – indisciplinadora de almas, levando-as a interrogarem-se.
Em todo o caso, e como esboço de uma conclusão, sempre provisória, reforço, parece-- me poder concordar com a opinião expressa por Murillo Nunes de Azevedo, um teósofo brasileiro, em texto intitulado: Fernando Pessoa Teósofo:
«Fernando Pessoa é, por excelência, o poeta do transcendentalismo. Sua poesia pode ser igualada à de Wiliam Blake. É densa, atingindo zonas do inconsciente, só reveladas aos místicos, aos profetas »
O mesmo autor aproxima a criação dos heterónimos da teosofia:
«Ao criar, do modo como o definiu, quase em êxtase, os heterónimos, o poeta mergulhava cada vez mais nas raízes do próprio Ser. Recebia então a comunicação directa das camadas profundas do inconsciente colectivo comum a todos os homens (...)A intuição é a visão directa da realidade, sem intermediários.»
Talvez «isto» que agora vos li seja tão só um muito pequeno e tímido começo para uma reflexão mais pessoal e mais profunda. Minha e de todos vós. Com a certeza de que são bastante ínvios os caminhos para captar o Pessoa detrás de todos os fingimentos e de todos os Pessoa (s).
Peço desculpa pela extensão do meu texto – era, porém, difícil fazê-lo mais breve.
É que só é capaz de ser sintético quem domina muitíssimo bem e vê claramente um problema. O que não é, decididamente, e por enquanto, o meu caso.
Para além de tudo o mais, dizia Camões, dirigindo-se à Canção: «E se acaso / te culparem de larga e de pesada, «Não pode ser – lhe dize - limitada / a água do mar em tão pequeno vaso »...
Termino como comecei, com referência ao homem de todos os desassossegos, Bernardo Soares, relembrando as suas palavras desconsoladas:
«Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos. »
Leiria, Fevereiro e Março de 2001
Amélia Pinto Pai
Comunicação às Jornadas Culturais / Literárias 2000 «Imagens de Deus na Literatura Portuguesa nos séc.XIX e XX» – Auditório da Escola Superior de Tecnologia e Gestão – Leiria, 15 e 16 de Março de 2001
por Amélia Pinto Pais,
da Escola Secundária de Francisco Rodrigues Lobo, de Leiria
por Amélia Pinto Pais
da Escola Secundária de Francisco Rodrigues Lobo, de Leiria
«Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos. Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim perdê-las a todas.
Nós perdemos essa, e às outras também.
Ficámos, pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de se sentir viver. Um barco parece ser um objecto cujo fim é navegar; mas o seu fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontrámo-nos navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher. Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos argonautas: navegar é preciso, viver não é preciso.
Sem ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo uma ideia do futuro, também não temos uma ideia de hoje, porque o hoje, para o homem de acção, não é senão um prólogo do futuro. A energia para lutar nasceu morta connosco, porque nós nascemos sem o entusiasmo da luta.(....)
(...). O que vivemos foi em negação, em descontentamento e em desconsolo. Mas vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no género de vida, entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de não saber agir.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares.
(frag.195)
Ao aceitar abordar a questão religiosa em Fernando Pessoa, a pedido do meu amigo e colega Dr. António Gordo, da Comissão Científica destas Jornadas, não pude deixar de colocar-lhe e de me colocar algumas reservas e perplexidades face ao tema proposto.
É que, em primeiro lugar, e sem negar a importância que têm os conteúdos e linhas de sentido de um texto, o meu apreço pela obra de Pessoa se faz sobretudo do ponto de vista estritamente literário /poético e não do ponto de vista dos conteúdos ideológicos / filosóficos que encerra («Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas», escrevia ele, por volta de 1910); por outro lado, sentia confusamente, do pouco de que me pudera aperceber até aí, que o problema de saber até que ponto Fernando Pessoa era um homem religioso, ele que se confessou uma vez, em 1935,em Nota Biográfica, «cristão gnóstico», ele que em tanto eus diferentes se projectara e se fizera poeticamente, ele que se quisera também um «indisciplinador de almas» — era tarefa algo ingente para o pouco tempo disponível que era o meu, tarefa mais adequada a uma tese de doutoramento em vários volumes e a preparar durante alguns anos.
Sentia também, e verifiquei-o posteriormente quando meti mãos à obra, que não era muita a bibliografia existente sobre esta complicada problemática. Assim:— como iria eu descobrir em tão pouco tempo o Pessoa nos vários Pessoa(s)? No Pessoa Caeiro, António Mora, Ricardo Reis, adeptos de teorias visando a reconstrução de um neo-paganismo de base helénica, mas também no Pessoa ortónimo de poemas simbolistas e quase místicos (alguns esotéricos e iniciáticos) e num Pessoa-Campos de poemas igualmente quase místicos como os Dois excertos de Odes, o Magnificat ou o «Afinal a melhor maneira de viajar é sentir»? E o Pessoa de Mensagem? – o do «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce», o do misticismo nacionalista corporizado no mito (que «é o nada que é tudo») de D.Sebastião, o «Encoberto», adivinhado por Bandarra ou António Vieira, o da «divina loucura», sagrado, como o Infante Santo ou o Infante D.Henrique, por Deus, para ser portador do Sonho construtor de Quintos Impérios ainda não concretizados?
De um desafio se tratava, pois, para mim, o de tentar encontrar pelo menos esboço de resposta para tantas interrogações. É desse esboço de resposta que trago, hoje e aqui, as linhas principais e as muitas interrogações que, certamente no final, vos ficarão.
Vejam-no apenas como esboço, como uma introdução ao problema.
Vou seguir de perto o que pude aprender na pouca bibliografia específica existente e, principalmente, em António Quadros, Fernando Pessoa-Vida, personalidade e génio (ed. D.Quixote, Lisboa, 2ªed.,1984), em Dalila Pereira da Costa, O Esoterismo em Fernando Pessoa (ed.Lello & Irmão, Porto, 2ªed.,1978), em alguns capítulos de Teresa Rita Lopes in «Pessoa por conhecer»(Estampa, Lisboa, 1990) e nos estudos de Yvette Centeno, ligados igualmente às questões do esoterismo, hermetismo e iniciação na poesia de Pessoa.E também, naturalmente, da minha reflexão pessoal. E, principalmente ainda, na minha interrogação inacabada.
Algumas coordenadas para o conhecimento de Fernando Pessoa:
Fernando Pessoa foi baptizado e educado em criança dentro dos parâmetros da religião católica; existe um documento dele, datado de 1907 (tinha o poeta 19 anos), dirigido ao pároco da freguesia em que fora baptizado, em que contesta o facto de o terem baptizado quando «ainda ente irracional», obrigando-o «a fazer parte de uma associação demasiado humana com as teorias da qual o seu raciocínio mais viril talvez não queira concordar»; no mesmo documento considerava a igreja católica «poderosa e estúpida, sustentando a velha hipótese d’um Deus criador, eminentemente estúpido e eminentemente mau»
2..2. Em 1915, em carta dirigida em 6 de dezembro a Mário de Sá Carneiro, confessava- se em crise profunda, derivada de ter tido que traduzir várias obras de teosofia. Cito:
«Tive de traduzir livros teosóficos. Eu nada, absolutamente nada, conhecia do assunto. Agora, como é natural, conheço a essência do sistema. Abalou-me a um ponto que eu julgaria hoje impossível, tratando-se de qualquer sistema religioso. O carácter extraordinariamente vasto desta religião-filosofia; a noção de força, de domínio, de conhecimento superior e extrao-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito. Cousa idêntica me acontecera há muito tempo com a leitura de um livro ingçês sobre Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz. A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me "hante".(-...)
E mais adiante: « Ora, se V.meditar que a teosofia é um sistema ultra-cristão — no sentido de conter os princípios cristãos elevados a um ponto onde se fundem não sei em que além-Deus e pensar no que há de fundamentalmente incompatível com o meu paganismo essencial, V. terá o primeiro elemento grave que se acrescentou à minha crise. Se depois reparar em que a Teosofia, porque admite todas as religiões, tem um carácter inteiramente parecido com o do paganismo, que admite no seu panteão todos os deuses, V. terá o segundo elemento grave da minha crise de alma. A Teosofia apavora-me pelo seu mistério e pela sua grandeza ocultista, repugna-me pelo seu humanitarismo e apostolismo (...), atrai-me por se parecer tanto com um «paganismo transcendental (...) É o horror e a atracção do abismo realizados no além-alma...»
Convém esclarecer aqui que a teosofia, literalmente «sabedoria divina» ou «dos deuses» é uma teoria que se situa como síntese de filosofia, religião e ciência, apelando para a intuição e faculdades não racionais e declarando a identidade do Homem com a Realidade e o seu consequente poder de conhecer a Finalidade, a Meta, que se chama Deus.
Vários intelectuais europeus do tempo de Pessoa se deixaram tocar por esta teoria, reactivada sobretudo a partir da actividade de Helena Blavatsky, uma das fundadoras e principal expoente da Sociedade Teosófica em Nova Iorque, em 1875. Fernando Pessoa traduziu, entre outras obras teosóficas, A Voz do Silêncio, obra essencial de Blavatsky. No entanto, a teosofia vem de muito antes e, nomeadamente de Platão e Plotino, para não falar das diversas correntes místicas e do próprio idealismo alemão.
2.3. Também por essa altura, em célebre carta à tia Anica, confessa sentir-se com características de mediunidade e desenvolve práticas de espiritismo, reveladoras, juntamente com o interesse pela teosofia, pelos Rosa-Cruzes e o seu gosto e prática da numerologia e da astrologia, o seu pendor para o oculto, que viria a aprofundar-se nos anos finais da sua vida.
Em 1935, ou seja, no último ano da sua vida, confessa-se, na já referida Nota biográfica, no ponto Posição religiosa: «Cristão gnóstico, e portanto, inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Cabala) e com a essência oculta da Maçonaria» e «Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal»
Compreende-se a sua autodefinição como gnóstico, dado pretender ser a a gnose o conhecimento esotérico e perfeito da divindade, que se transmite por meio da tradição e mediante rituais de iniciação. Tal iniciação tê-la-á conseguido o poeta não pela sua integração na Maçonaria ou noutras associações secretas e ocultistas, mas pela reflexão e estudo e pela experiência poética , que, segundo Jung « aflora de regiões profundas da alma, salutares e benéficas, preexistentes à segregação das consciências individuais, e que, a partir desse regaço colectivo, seguiram os seus passos dolorosos. Brota dessas regiões onde todos os seres vibram ainda, em uníssono, e onde consequentemente a sensibilidade e a acção do indivíduo valem para toda a humanidade.»
Como última destas coordenadas, em carta do mesmo ano a Adolfo Casais Monteiro, diz-se não mação e opina sobre o Ocultismo, dizendo «não acreditar na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir-nos comunicando com seres cada vez mais altos»; define também, na mesma carta, 3 caminhos para o Oculto, o mágico, o místico e o alquímico, considerando o último «o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara».
Um conhecimento contemplativo de Deus:
Traçadas as coordenadas principais, a nível do pensamento religioso de Fernando
Pessoa, pondo, para já, de parte a longa teorização e defesa do Neopaganismo português, atentemos nalguns textos reveladores daquilo que podemos considerar ser o seu percurso poético /religioso, na busca do Conhecimento ou Gnose:
Por volta de 1912, tinha o poeta então 24 anos, e no mesmo ano em que publicava na «Águia» os seus primeiros artigos sobre a moderna poesia portuguesa, surge-nos um texto belíssimo intitulado «Prece» que passo a transcrever:
Prece:
«Senhor, que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo estás - (o teu templo) - eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
[...]
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.» -
Este texto, em que António Quadros encontra, a meu ver com razão, ecos do Hino ao Sol do faraó monoteísta Akhenaton e afinidades com os cantos de S.Francisco de Assis, marca, segundo o mesmo autor, o «1ºmarco de uma longa e árdua peregrinação», revelando «toda uma vivência interior de transcendência que reúne a visão do ser humano, entre o animal e o espiritual».Nele é visível «uma enorme exigência de pureza e de Absoluto, um sentimento de adoração, a consciência profunda da vanidade egolátrica, um desejo de entrega e de abandono no divino», traduzindo, igualmente, «o efeito de uma experiência íntima, secreta.»
Pouco depois desta «Prece», em 1913, tinha então 25 anos, parece o Poeta ter tido uma primeira experiência de revelação, de êxtase quase místico, como afirma Quadros. Trata- - se do poema em 5 partes, Além-Deus. Na 1ªparte,
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é ser rio e correr?
O que é está-lo eu a ver?
Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — e o mundo em seu redor —
Fica mais que exterior.
Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, ideia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...
E súbito encontro Deus..
a realidade visível do Tejo e do olhar o Tejo some-se, abre-se para o invisível, o vácuo, como ele diz,«súbito», «de repente» , condição em que como numa aparição «súbito encontr(a) Deus». Todos podemos reconhecer nesta experiência relatada poeticamente ecos da «noite escura da alma» do poeta místico espanhol S.Juan de La Cruz...
Na 2ºparte de Além-Deus, o poeta procura explicar como tudo se passara: Passou (título da 2ªparte): «Passou, fora de Quando,/De Porquê, e de Passando...»; na 3ªparte, intitulada A Voz de Deus, reconhece na percepção do indizível, a fusão total do Eu e do universo a partir da audição da voz de Deus:
«Brilha uma voz na noute..
De dentro de Fora ouvi-a .
Ó Universo, eu sou-te..../»
E mais adiante:
«Cinza de ideia e de nome
Em mim, e a voz: Ó mundo,
Sermente em ti eu sou-me...
Mero eco de mim, me inundo
De ondas de negro lume
Em que pra Deus me afundo.»
Este inundar-se em Deus equivale à Queda (título do 4ºpoema da série)
«Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Se ter Eu nem Ali.»
Tal queda/mergulho no inefável, no indizível é o encontro do Além-Deus.
«Além-Deus! Além Deus! Negra calma ..
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...»
O 5º e último poema, de título de ressonância esotérica ( e surrealista) – Braço sem corpo brandindo um Gládio – «é o regresso à realidade quotidiana, lugar da dúvida, da interrogação, do espanto, da incapacidade de aferir, pela razão humana, aquilo que por instantes envolveu o ser inteiro, deixando atrás de si um sentimento de irrealidade» — conclui assim o poema:
«Deus é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me...»
Em 1914, nova série de poemas— Os Passos da Cruz (curiosa a imagística que é a mesma da Paixão de Cristo – atingir o saber, o conhecimento, será cumprir, como em qualquer ritual iniciático, os passos da cruz em subida a um qualquer Calvário? Será a queda necessária ao atingir do Graal, da revelação?)– a morte de «anima». Trata-se, como sabemos, de uma série de 14 sonetos, de que convém destacar os sonetos X —
Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma coisa de alma do que é meu.
Narrei-me a sombra e não me achei sentido
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...
os sonetos XI e XIII, em que o Poeta se vê como emissário, simples executor de algo que lhe é ditado (por quem? – por oculta mão? , por um rei desconhecido?) de reminiscências notoriamente neoplatónicas
XI
Não sou eu quem descrevo. Eu sou a tela
E oculta mão colora alguém em mim.
Pus a alma no nexo de perdê-la
E o meu princípio floresceu em Fim.
Que importa o tédio que dentro em mim gela,
E o leve Outono, e as galas, e o marfim,
E a congruência da alma que se vela
Com os sonhados pálios de cetim?
Disperso... E a hora como um leque fecha-se...
Minha alma é um arco tendo ao fundo o mar...
O tédio? A mágoa? A vida? O sonho? Deixa-
- se...
E, abrindo as asas sobre Renovar,
A erma sombra do voo começado
Pestaneja no campo abandonado...
XIII
Emissário de um rei desconhecido
Eu cumpro informes instruções de além,
E as bruscas frases que aos meus lábios vêm
Soam-me a um outro e anómalo sentido...
Inconscientemente me divido
Entre mim e a missão que o meu ser tem,
E a glória do meu Rei dá-me o desdém
Por este humano povo entre quem lido...
Não sei se existe o Rei que me mandou
Minha missão será eu a esquecer,
Meu orgulho o deserto em que em mim estou...
Mas há! Eu sinto-me altas tradições
De antes de tempo e espaço e vida e ser...
Já viram Deus as minhas sensações...
O último poema da série termina com «E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo»
Vejamos:
Como uma voz de fonte que cessasse
(E uns para os outros nossos vãos olhares
Se admiraram), para além dos meus palmares
De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce
De música longínqua, asas nos ares,
O mistério silente como os mares,
Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paisagem longínqua só existe
Para haver nela um silêncio em descida
Para o mistério, silêncio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo,
O mundo, o informe mundo onde há a vida...
E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...
Pessoa parece reconhecer em Deus a meta – em carta a Armando Cortes Rodrigues, datada de 19.1.1915, escrevia: «você é, como eu, fundamentalmente um espírito religioso» e mais adiante, referindo-se à solidão de sentir alguém que se «adiantou de mais aos companheiros de viagem » a viagem que, segundo diz, acha«tão grave» porque é uma viagem «entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores...e Deus, fim da estrada infinita, à espera no silêncio da Sua grandeza...»
Podemos então talvez concluir como Quadros e Dalila Pereira da Costa, que entre 1912 e 1915 o Poeta, reconhecendo-se explicitamente como «espírito religioso» terá tido uma experiência de conhecimento contemplativo, quase de contacto místico, não racional, portanto, com o grande Intervalo, com Deus. Só bastante mais tarde, a partir de 1932, tal experiência viria a repetir-se, como veremos.
A busca da unidade perdida: o neopaganismo / Mestre Caeiro
Nos anos seguintes, foi a vez da uma busca de respostas outras ao problema: —
sou múltiplo, sou plural como o Universo.- Como reencontrar a Unidade perdida? Como ultrapassar o conflito /divisão entre o que sou e o que me sonho, entre o que sonho e o que faço, entre «a lealdade que devo /À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora/E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro»?
Penso que esta terá sido porventura a questão fundamental de Pessoa e dos seus «desassossegos» existenciais...
É este o período fecundo das tentativas neopagãs (e de toda a teoria do neopaganismo português – uma «Igreja» de que se fazem eco e «evangelistas» o filósofo António Mora, mas também Ricardo Reis e o próprio Pessoa).Nessa nova Igreja , Cristo é apenas mais um deus no panteão e como tal aceite por Reis; o que é intolerável é que os cristãos o afirmem como único; se a natureza é plural, como conceber um panteão que não o seja?. Cristo, a existir, será o Deus- Criança, a «Criança Nova», a «Criança eterna» do Poema VIII de O Guardador de Rebanhos de Caeiro (ele próprio, o Mestre, o que «não era pagão, era o paganismo», segundo o discípulo porventura mais amado e mais rebelde, Campos) – a criança surgida em sonho, fugida do Céu e das roupagens míticas de que o revestiram, e vindo morar na casa do Outeiro /«adormecendo» na alma do Poeta, não sem antes o ter ensinado a ver — e se ter comportado como criança:
«Esta é a história do meu Menino Jesus – conclui o poeta - Por que razão que se perceba/Não há-de ser ela mais verdadeira/Que tudo quanto os filósofos pensam /E tudo quanto as religiões ensinam?»
O mesmo Menino Jesus-Caeiro, que afirma não acreditar em Deus.«Não acredito em Deus porque nunca o vi./Se ele quisesse que eu acreditasse nele,/Sem dúvida que viria falar comigo /E entraria pela minha porta dentro /Dizendo-me, Aqui estou !
Uma religião, afinal, panteísta, a deste Mestre Caeiro, que parece recusar a visão do transcendente, mas absolutiza o real como se Deus fosse tão somente o real, as coisas da natureza. Um pouco como nas filosofias orientais, mas, ainda que o não parecendo, muito próxima da visão de S. Francisco no Cântico das Criaturas....Dando a sua resposta, afinal – a da sua completa a perfeita comunhão com o real, recusando conhecê-lo pelo pensamento (afinal: pensar é não compreender, pensar é estar doente dos olhos, pensar incomoda como andar à chuva...). Poderemos, ainda aqui, falar de misticismo de outro tipo – o misticismo panteísta de fusão com a natureza; por ele Sujeito e Objecto fundem-se e encontram a Unidade.
Mas Caeiro morreu cedo, como, de certo modo, inviável era «aprender a desaprender», recuperar a inocência da criança que vê tudo como se fosse pela primeira vez ou da ceifeira e da sua alegre inconsciência de não saber como a «ciência pesa tanto e a vida é tão breve!» e por isso «canta sem razão» — e com a sua morte prematura morreu também um pouco a teoria/igreja neopagã:
— Mora, o assumidamente filósofo, reduz-se ao silêncio;
— Reis assume o seu epicurismo triste, o «colhe o dia porque és ele», o «abdica e sê rei de ti próprio», tristemente, ou antes, desconsoladamente, dando conselhos, a meu ver pouco convictos, refugiando-se num cepticismo de escola («Assim talvez os deuses / Para si o não sejam, / E só de serem do que nós maiores / Tirem o serem deuses para nós // Seja qual for o certo, / Mesmo para com esses / Que cremos serem deuses, não sejamos / Inteiros numa fé talvez sem causa») ; digamos que ele é um «pagão triste da decadência», como a última imagem que quer conservar de Lídia, sua apaixonada virtual.
— Quanto a Pessoa, o ortónimo, aquele de quem Campos diz que «seria um pagão se não fosse um novelo embrulhado para o lado de dentro» atingirá, de certo modo, confundindo - se com Campos, na parte final da vida, o êxtase que entrevira em 1912 a 1915;
— Campos será sempre, e passada a fúria sensacionista do querer ser toda a gente e toda a parte, o mais desassossegado de todos, encontrando a paz e a verdade possíveis apenas no sonho de epopeias marítimas triunfais sem sair nunca do «cais deserto», imagem e sombra do Cais absoluto e arquetípico , de reminiscência ou anamnese platónica - atingirá, porém, e talvez em resposta ao seu desassossego e à sua busca, finalmente, e de novo, a alegria de encontrar Deus, ou em todo o caso, o Sagrado e a plenitude em textos como Magnificat e no Sursum Corda! de Afinal a melhor maneira de viajar é sentir...
Como diz Dalila Pereira da Costa, «o paganismo como idade da humanidade, forma e
visão do cosmos e apreensão do mundo, ser-lhe-ia revelado e dado a participar por directa experiência pessoal, em instantes que, abolindo milénios de afastamento, tal uma prodigiosa anamnese, o poeta consignou em Dois excertos de Odes, Passagem das Horas, Afinal a melhor maneira de viajar é sentir ... Aí, pela sua intuição poética, pelo seu dom de visionário, ele teria o poder, tal como Holderlin, de realizar uma ressurreição vivida dessa idade, em toda a sua verdadeira alma, e dela participar. Aí o cosmos surgir-lhe-ia em toda a sua antiga e eterna sacralidade.»
É esse, a seu ver, o verdadeiro sentido do neopaganismo de Pessoa.Com efeito, o sentido do mistério perpassa nesses poemas, onde é visível, como nos poemas orrtónimos «Silvos ou gnomos tocam?» ou «Passos tardam na relva», em que pequenos seres míticos são pressentidos.
« Caminhos para o oculto»:
Chegamos, neste ponto, ao tratamento daquilo que Quadros designa de caminhos
para o oculto. Segundo ele, Pessoa experimentou ou tentou, melhor dizendo, três caminhos de aproximação do Mistério, tantas vezes pressentido ou entrevisto. Seriam eles o caminho gnósico da percepção e visão supranormal, da imaginação, do sonho, da mediunidade, da reminiscência anamnésica platónica, da permeabilidade ao inconsciente colectivo ou arcaico, ou das iluminações , inspirações e contactos de ordem mística. A segunda via, segundo Quadros, seria ocaminho sófico – reflexão metafísica associada à cultura erudita; depois do clarividente, o pensador, o intelectual, o erudito, o que raciocina exaustivamente. Finalmente, a via ou caminho iniciático, presente em poemas esotéricos conhecidos como Na sombra do Monte Abiegno, Do Vale montanha`,A Múmia, Iniciação, Eros Psique, No túmulo de Christian Rossencreutz. Estes poemas têm sido exaustivamente analisados, quer por Dalila Pereira da Costa, quer por Yvette Centeno, e remeto para tais estudos aprofundados os meus queridos e pacientes ouvintes.
Na sombra do Monte Abiegno
Repousei de meditar.
Vi no alto o alto Castelo
Onde sonhei de chegar.
Mas repousei de pensar
Na sombra do Monte Abiegno.
Quando fora amor ou vida,
Atrás de mim o deixei,
Quando fora desejá-los,
Porque esqueci não lembrei.
À sombra do Monte Abiegno
Repousei porque abdiquei.
Talvez um dia, mais forte
Da força ou da abdicação,
Tentarei o alto caminho
Por onde ao Castelo vão.
Na sombra do Monte Abiegno
Por ora repouso, e não.
Quem pode sentir descanso
Com o Castelo a chamar?
Está no alto, sem caminho
Senão o que há por achar.
Na sombra do Monte Abiegno
Meu sonho é de o encontrar.
Mas por ora estou dormindo,
Porque é sono o não saber.
Olho o Castelo de longe,
Mas não olho o meu querer.
Da sombra do Monte Abiegno
Que me virá desprender?
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.
Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.
Na sombra do Monte Abiegno: — o Monte Abiegno é a Montanha que une os planos terrestre e celeste, desafio ao homem que aspira pelo Absoluto. A imagem docavaleiro-monge, como a do Castelo, ambas de ressonâncias medievais, é a do cavaleiro solitário que busca «por ínvios caminhos» o seu Graal – a Verdade
Mais importante ainda é o conjunto de poemas A Múmia, também cronologicamente o primeiro destes poemas esotéricos. Segundo Yvette Centeno, assistimos nesta poesia cifrada «a um percurso espiritual, iniciático (em que se confirma a morte da alma) e a uma revelação. O poeta desce progressivamente dentro de si mesmo, separa-se de toda a realidade material e espiritual, fica reduzido à própria espinha, ao osso, à pura essência; e obtém no fim a revelação sobre a qual nada diz...»Tal percurso «é pontuado por uma absorção no Inconsciente, pela constatação da morte de Anima e pela depuração do Eu até à fixação na própria espinha, terminando de chofre com a enigmática substantivação «As espadas». As espadas equivaleria ao fogo dos filósofos, sendo também um atributo dos iniciados templários e rosa-cruzes, o que leva Centeno a interrogar-se: «Que concluir daqui? Que a revelação das espadas equivale à revelação simultânea, à «abertura, aqui» da porta do Entendimento e da beleza? Experiência que coroa a realização do homem, do poeta.»
A experiência alquímica visa, segundo Mirciade Eliade, «transmutar o homem; pela iniciação, o místico mudava de regime ontológico (fazia-se imortal). A transmutação, o opus magnum, que conduzia à pedra filosofal. obtém-se fazendo passar a matéria por 4 graus ou fases, entre as quais a nigredo e putrefactio, ou morte iniciática (....).»
Os poemas mais claramente iniciáticos de Pessoa são os já referidos «Iniciação», «No túmulo de Christian Rossencreutz» e ainda o de certo modo enigmático «Gomes Leal». Detenhamo-nos um pouco mais sobre o primeiro:
Iniciação
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
......
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte
E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
......
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
......
Neófito, não há morte.
Só despindo-se, pela desnudação, o poeta encontra a verdadeira vida/unidade: por isso, «neófito, não há morte». Para o conseguir é preciso, porém atingir o fundo do poço, da caverna onde a verdadeira vida e a verdadeira verdade, passe a redundância, se encontram.
O corpo nada mais é que invólucro pesado e obstáculo de que é necessário despojar-se.
Como escreve Dalila Pereira da Costa:
«. Aqui o neófito renasce, depurado para outra vida, nessa caverna regeneradora, centro das forças do mundo e do eu, da energia primeira: sua matriz. Novo ciclo de existência se lhe abre: a dos deuses, «pois aí vês que são teus iguais». Aqui se termina a transmutação suprema, tal outra operação alquímica, que é a morte. Por esses estados sucessivos se ultrapassou, ou largou, a natureza humana e se adquiriu a natureza celeste, matéria última, incorruptível e eterna.
Iniciação poderá ser visto semelhantemente como uma purificação, numa alquimia do corpo humano. Por essa destruição, combustão de todos os elementos acidentais, exteriores, agarrados ao seu núcleo, central e incorruptível, fazer que este por fim, liberto e único, brilhe na caverna, a última etapa do trabalho interior: como a «matéria-prima». Nesse cadilho alquímico, ela será a obtenção final do diamante incorrupto, ou «Lapis Philosophorum». O ser primordial e eterno, o que um dia caiu do infinito, e que aqui sobre a terra, é o proscrito. Fechando assim agora o círculo, este poema, como «exitus», será o segundo e complementar movimento desse outro (como linha ascensional numa mesma onda), que surgiu na sua juventude, e em semelhante ambiente de mistério iniciático: os Passos da Cruz»
Da iniciação resulta também a desgraça, a tristeza e a solidão, como parece entrever- - se no poema Por que Ó Sagrado (datado de 1932):
Por que, ó Sagrado, sobre a minha vida
Derramaste o teu verbo?
Por que há- de a minha partida
A coroa de espinhos da verdade
Antes eu era sábio sem cuidados,
Ouvia a tarde finda, entrar o gado
E o campo era solene e primitivo
Hoje no meu ser sou o escravo
Só no meu ser tenho de a ter o travo,
Estou exilado aqui e morto vivo.
Maldito o dia em que pedi a ciência!
Mais maldito o que a deu, porque me a deste!
Que é feito dessa minha inconsciência
Que a consciência, como um traje, veste?
Hoje sei quase tudo e fiquei triste...
Sei a verdade, enfim, do Ser que existe,
Prouvera a Deus que eu não soubesse tanto!
O retomar da experiência de êxtase:
Novas experiências místicas vão surgir, no entanto, a partir desse mesmo ano – e o êxtase dos primeiros tempos, de Além - Deus, surge em Magnificat, de Álvaro de Campos:
MAGNIFICAT (7-11-1933)
Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!
Trata-se, na opinião de Quadros, de «um cântico de assunção e êxtase», «momento de apaziguamento – consolado, repousado, gratificado. Porque, contemplado em êxtase, Esse lho terá concedido.» .
Confirma-se, assim, a opinião já referida de Dalila Pereira da Costa de que:
«Deus em Pessoa não é um conceito, uma noção teórica nem um ideal abstracto. Sua ideia de deus não é racional. Ele é uma realidade conhecida por experiência directa. Uma realidade eminentemente viva, como o Deus vivo da Bíblia, o mesmo que todos os grandes espirituais conheceram.(...) Não procuremos tão pouco no seu pensamento um Deus de feição moral. O seu deus é o dos contemplativos, conhecido e revelado no amor e na liberdade. A salvação aqui não é dada através dos méritos e das obras próprias, mas pela união sagrada com Deus. É nela que estará o homem justificado.»
Vemo-lo também lendo, em vésperas de Natal de 1934, e ainda com Álvaro de Campos, a 1ª Epístola aos Coríntios:
Ali não havia electricidade.
Por isso foi à luz de uma vela,mortiça
Que li, inserto na cama,
O que estava à mão para ler —
A Bíblia, em português (coisa curiosa), feita para protestantes.
E reli a «Primeira Epístola aos Coríntios».
Em torno de mim o sossego excessivo de noite de província
Fazia um grande barulho ao contrário,
Dava-me uma tendência do choro para a desolação.
A «Primeira Epístola aos Coríntios»...
Relia-a à luz de uma vela subitamente antiquíssima,
E um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim...
Sou nada...
Sou uma ficção...
Que ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo?
«Se eu não tivesse a caridade.»
E a soberana luz manda, e do alto dos séculos,
A grande mensagem com que a alma é livre...
«Se eu não tivesse a caridade..»
Meu Deus, e eu que não tenho a caridade!---
Em Magnificat reencontra-se Campos / Pessoa consigo mesmo, com a Unidade. Tal unidade, conseguida pelo contacto directo com o Absoluto, é também, no entender de Quadros e nosso, prosseguida e conseguida no poema «A melhor maneira de viajar é sentir».
Nele se afirma:
Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas
Quantas mais personalidades eu tiver
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir como todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a essência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é tudo,
E fora d’ Ele há só Ele, e tudo para Ele é pouco...
E mais adiante:
Cada alma é uma escada para Deus
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo para as margens do Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.
— E, se assim é, o convite:— Sursum corda!
Sursum corda! Erguei as almas!
Todo o Mistério é Espirito (...)
O Poeta, cuja alma é corredor - Universo para Deus explode em cânticos de louvor –
«reparo para ti e sou todo um hino!»
e pede:
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada trespassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti próprio sempre.
É que, afirma:
Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados e ao mesmo tempo, sou um globo
de chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o número da minha lógica
A minha inteligência limitadora e gelada.
E o poema prossegue: — Oferece-se como dinamismo poderoso, tendo integrado em si «todos os movimentos que compõem o universo, a fúria minuciosa e dos átomos, a fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos, a espuma furiosa de todos os rios» e dizendo:
«Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh’alma»
O poema termina, com o poeta dirigindo-se a essa força cósmica (Deus?) dizendo:
«Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode (...)
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida, (...)
Sobrevive-me, em minha vida, em todas as direcções!»
As questões que ficam:
E aqui está, como neste sensacionismo assumido se retoma e se esclarece, ganhando
nova luz, o «Já viram Deus as minhas sensações». de Passos da Cruz.
Concluiríamos assim que também (ou sobretudo?) a sensação é força propulsora da caminhada do cavaleiro-monge em direcção ao Monte Abiegno ou a Deus, a Grande Ogiva?
Que Caeiro – o sensacionista dos sensacionistas, o porventura talvez mais whitmaniano (indo para além do próprio Whitman, de resto) – seria também uma via para Deus, para o Absoluto, para a fundamental unidade?
São perguntas que ficam. Eu nada sei – ou quase nada. Apenas me interrogo – e interrogo; como Pessoa me sinto – ou gostaria de me sentir e ser – indisciplinadora de almas, levando-as a interrogarem-se.
Em todo o caso, e como esboço de uma conclusão, sempre provisória, reforço, parece-- me poder concordar com a opinião expressa por Murillo Nunes de Azevedo, um teósofo brasileiro, em texto intitulado: Fernando Pessoa Teósofo:
«Fernando Pessoa é, por excelência, o poeta do transcendentalismo. Sua poesia pode ser igualada à de Wiliam Blake. É densa, atingindo zonas do inconsciente, só reveladas aos místicos, aos profetas »
O mesmo autor aproxima a criação dos heterónimos da teosofia:
«Ao criar, do modo como o definiu, quase em êxtase, os heterónimos, o poeta mergulhava cada vez mais nas raízes do próprio Ser. Recebia então a comunicação directa das camadas profundas do inconsciente colectivo comum a todos os homens (...)A intuição é a visão directa da realidade, sem intermediários.»
Talvez «isto» que agora vos li seja tão só um muito pequeno e tímido começo para uma reflexão mais pessoal e mais profunda. Minha e de todos vós. Com a certeza de que são bastante ínvios os caminhos para captar o Pessoa detrás de todos os fingimentos e de todos os Pessoa (s).
Peço desculpa pela extensão do meu texto – era, porém, difícil fazê-lo mais breve.
É que só é capaz de ser sintético quem domina muitíssimo bem e vê claramente um problema. O que não é, decididamente, e por enquanto, o meu caso.
Para além de tudo o mais, dizia Camões, dirigindo-se à Canção: «E se acaso / te culparem de larga e de pesada, «Não pode ser – lhe dize - limitada / a água do mar em tão pequeno vaso »...
Termino como comecei, com referência ao homem de todos os desassossegos, Bernardo Soares, relembrando as suas palavras desconsoladas:
«Pertenço a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda iam buscar a Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a consciência, sem elas oca, de meramente viver.
Tudo isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos. »
Leiria, Fevereiro e Março de 2001
Amélia Pinto Pai
Comunicação às Jornadas Culturais / Literárias 2000 «Imagens de Deus na Literatura Portuguesa nos séc.XIX e XX» – Auditório da Escola Superior de Tecnologia e Gestão – Leiria, 15 e 16 de Março de 2001
por Amélia Pinto Pais,
da Escola Secundária de Francisco Rodrigues Lobo, de Leiria
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