quinta-feira, 18 de abril de 2013

ESCREVINHADOR SENSÍVEL ESCREVE PARA PESSOAS DOCES


Tem dias como hoje que passo horas lendo poemas e poesias em buscas pela internet. É como se comporta um homem como eu, fechado e anti-social. É um vício louco, bem eu sei, mas o mundo lá fora não me interessa mais. Se preferirem fiquem à vontade para fazer quaisquer tipos de julgamentos a respeito disso que vos escrevo. Isso também não me interessa mais.
Eu andava preocupado comigo mesmo, pois não via em mim nenhum vício, pois nunca fumei, bebo algumas vezes um vinho tinto seco quando a temperatura ambiente está fria ou temperada e também não uso drogas. Quase não vejo televisão e sou heterossexual praticante, ou seja, um cara deslocado e como disse anti-social. Uma pessoa assim não tem muito espaço no mundo atual. É como me sinto um E.T. Parece que não sou desse planeta. Não é simplesmente uma questão de ser diferente ou melhor do que alguém, mas uma questão de ser incompatível com a sociedade, uma questão de inadaptabilidade ao mundo.

Eu não consigo ter uma visão otimista do mundo e já li todos os livros de auto ajuda e sempre chego a mesma conclusão, mercantilismo, mentiras e hipocrisias ou, auto engano.

Amigos leitores, também não é uma questão de mudar o mundo, isso não existe, o mundo  é o que é, ou melhor, é o que fizemos dele. A única coisa que pode ser mudada é a nossa mente com relação o mundo que percebemos, que é exatamente o diz o UCEM (Um Curso Em Milagres).

Mas um poeta é um insatisfeito, uma pessoa incomodada com a realidade e por isso cria palavras e as une sem nenhum sentido para as pessoas que não sejam poéticas. Um ser racional, lógico dificilmente poderá gostar de um poema ou de um poeta. Um poeta é um chato. No entanto, é sempre bom lembrar da poetisa Cora Coralina que nos diz muito apropriadamente: “ Poeta, não é somente o que escreve. É aquele que sente a poesia, se extasia sensível ao achado de uma rima à autenticidade de um verso”

A leitura de poemas tem uma ação terapêutica em mim na medida em que acalma minha alma, me deixa mas relaxado. É evidente que nem tudo que dizem ser um poema tem essa ação, mas ler poemas é como garimpar ouro, no meio de toneladas de pedras e barro você sempre acha uma pepita. E de tanto ler poemas acabei escrevendo umas palavras que tenho ousado chamar de poesia. Escrever acabou sendo nesse caso uma conseqüência das leituras.

É preciso algum romantismo consciente e muita sensibilidade para gostar de poesias. Como não se sensibilizar, por exemplo, com esse trecho de Walt Whitman em “Canção de Mim Mesmo”:

“Fica esta noite e este dia comigo e será tua a origem de todos os poemas. Será teu o bem da terra e do sol (há milhões de sóis para encontrar). Não possuíras coisa alguma de segunda ou de terceira mão, nem enxergarás através dos olhos de quem já morreu, nem te alimentarás outra vez dos fantasmas que há nos livros”.

“...fantasmas que há nos livros”. É o que vejo e sinto quanto lia os romances, ficções e não-ficções. Mas já não percebo esses “fantasmas” num bom poema. Quem sabe um poema seja um exorcismo? E os fantasmas fugiram, não estão mais lá. Quem sabe? Então poetizar seria  exorcizar fantasmas.

Uma pessoa racional e lógica sempre interpretará um poema dentro da sua racionalidade e lógica, e um poema não é para ser interpretado. Poesia é sentimento. Sentimento é sentir. Não há coerência na poesia.

Há bem pouco tempo atrás eu ainda me aborrecia quando alguém fazia um comentário sobre meus poemas dentro dessa lógica e racionalidade. Assim como também ficava irritado quando o leitoro(a) não tendo nenhum conhecimento da linguagem poética, confundia o “eu pessoal” com o “eu poético” de daí tirava conclusões sobre minha personalidade. Alguns leitores sequer sabem o que é uma metáfora e sem esses conhecimentos básicos, não se pode apreciar um poema.

Ler um poema não é como ler um romance, um livro de ficção, uma narrativa, descritiva, um relatório, etc. Poesia é síntese. Como diz Mario Quintana, nós não lemos um poema é ele quem nos lê.

Um dos maiores poetas escreveu:

“E foi naquela Época...
A poesia chegou me procurando.
Eu não sei, não sei de onde ela veio,
se de um invernou ou de um rio.
Eu não sei como nem quando.
Não, não eram vozes, não eram palavras, nem silêncio;
mas de uma rua eu fui chamado abruptamente (...) e ela me tocou” - (Pablo Neruda)

Eu acho que a poesia chegou me procurando também Pablo, chegou abruptamente e me tocou. Provavelmente eu nunca serei um poeta famoso como Pablo Neruda, como Fernando Pessoa, como Mario Quintana, dentre outros, mas a poesia toca as pessoas que não se adaptaram ao mundo e eles acabam, através de seus poemas vivendo um mundo particular de palavras.

Existem poemas que não tem poesia. A maioria, eu diria. Mas não importa, nem toda árvore bonita tem flor. Platão disse que “ao contato com o amor, todos se tornam poetas”. Então, todos podem potencialmente ser poetas.

Uma boa poesia exige humildade e deve causar estranheza, porque não é comum e banal. Aquilo que é banal e comum não causa estranheza.  Carlos Drummod de Andrade disse que tentou resolver através dos versos problemas existenciais internos. Problemas de angústia, incompreensão e inadaptação ao mundo.

Eu não me considero um poeta, talvez um aprendiz de poeta, no entanto, tenho esses mesmos problemas citados por Drummond, por isso leio e escrevo poemas. E é por isso que tem dias que passo o tempo quase todo lendo poesia, dias de profunda solidão, dias de E.T., dias de forasteiro, dias que tento fugir da Matrix.

(©Paulo Cesar de Oliveira – 18-04-2013)