Li hoje na revista Bula do jornalista Carlos Willian Leite a lista dos 10 maiores poemas dos últimos 200 anos, de acordo com pesquisa que o jornalista fez a 30 convidados - escritores, críticos, professores e jornalistas. As 10 maiores poesias em todos os tempos.
Mais uma vez aparece na lista dos 10 mais, o meu poema
preferido, "Tabacaria" de Fernando Pessoa, o qual já
publiquei aqui nesse blog mais de uma vez. Em todas as
listas dos maiores poemas nunca deixei de ver o poema
"Tabacaria" fora, ele consta em todas as listas que tive
conhecimento.
Se como disse o poeta Mário Quintana - um bom poema é
aquele que lê a gente em vez da gente o ler. Se é verdade,
como disse Nietzsche que - tiramos de um livro ou de um
poema aquilo que temos dentro da gente -, se isso for
verdade, esse poema "Tabacaria" é tudo isso para mim. Ele
me leu e ele está dentro de mim.
Penso que um padre no confissionário deveria dizer assim
para os pecadores depois de ouvir seus pecados:
- "Meu filho, minha filha, reze 3 "Pai Nossos", 3 "Aves Marias"
e leia o poema "Tabacaria" de Fernando Pessoa 3 vezes
ao dia."
Segue um trecho do poema. Aqui no blog você o encontra na
íntegra em "Marcadores - Fernando Pessoa".
pco/.
Tabacaria
(Fernando Pessoa)
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
