Sentada à mesa do
jantar, troco com a família considerações de recém-licenciada. Constato,
pela primeira vez e com alguma violência, que o mundo contemporâneo não
foi feito para mim. Ou que eu não fui feita para o mundo contemporâneo.
Sinto - fulminantemente e obscuramente e dolorosamente - que a matéria
de que sou feita não poderá resistir a um só dos maravilhosos planos que
a civilização humana tem preparados para mim desde há séculos: ser
mulher, mãe, trabalhadora, cidadã. Crente, protestante.
Ser amiga, ser
amante. Sou uma peça do puzzle que não encaixa, um produto industrial
com defeito de fabrico. Tenho por dentro um intruso, um inimigo
invencível. Estou à mercê de um predador implacável.
Compreendam: eu não
posso esperar pelo Natal para que possa dizer que vos estimo. Eu não
posso esperar pelo fim das coisas para que possa dizer que vos desejo
bem. Do que eu preciso é de um mundo onde possa citar Rilke sem correr o
risco de ser internada.
Onde possa viver livremente o meu romantismo
sôfrego e vagamente idiota. Um mundo onde possa aparecer - sem livro
para devolver, sem DVD para pedir emprestado - e dizer «Tudo, exceto
tu, é rotina peganhenta»!
Ouvir dizer «amo-te» era fácil, hoje já é mais complicado. Requer muito
treino, não estamos preparados. Fomos educados para sermos acima de tudo
eficazes. Nada nos foi dito na aula de descer abismos. Nada vem escrito
nos livros que lemos. Tudo nos abala, nos confunde. Nos funde por vezes
com o que, depois vemos, não é digno do nosso amor.
Ah, o amor. O amor faz-se se houver tempo. O amor faz-se aos bocadinhos e
só se convier. O amor faz-se na pausa para o café. O amor é uma
aberração. O amor mete medo. Chega-te para lá com esse «adoro-te»! Não
me venhas com esse «gosto de ti»! Cai-nos a PIDE do amor em cima, és
apanhado e vais dentro. O amor quer-se preso pela trela. O amor quer-se
de castigo no canto da sala. Pouca conversa, pouco barulho. O amor
custa. Perde-se tempo e dinheiro.
O amor está fora de moda. Não condiz
com as batas brancas da biologia nem com os botões coloridos da
tecnologia nem com a cor do papel dos contratos pré-nupciais. O amor é
para meninos, ser-se crescido é outra coisa. O amor foi-nos confiscado.
Não contem comigo. Eu não tenho jeito nenhum para ser a pessoa que todos
esperam. Não tenho competência para ficar a ver o amor passar sem
correr atrás. Compreendam: o amor é a minha campainha de Pavlov.
Estímulo-resposta, como me foi explicado na escola de fazer profissionais.
Eu não tenho jeito para telefonemas nem para passeios em centros comerciais.
Não contem comigo para ser cão que ladra mas não morde. Não contem
comigo para não dizer o que não é suposto. Para cancelar beijos,
inventar pretextos, sufocar euforias, adiar alegrias. Para vos escutar
em silêncio.
Para vos poupar ao meu amor, não contem comigo. Compreendam: eu não me posso comprometer.
(Susana Cristina Marques Santos, in 'Textos de Amor – Museu Nacional da Imprensa')
