"A poesia foi, inicialmente, sentimento. O homem escutou a voz íntima que lhe falava em silêncio e cantou.” Humberto de Campos
Fui,
por diversas vezes, na sala de aula, questionado por alunos, se os
vocábulos poesia e poema eram a mesma coisa; se tinham o mesmo
significado; se era certo, correto usar tanto poesia quanto poema, em
referência a um conjunto de versos escritos por alguém?
Esse
questionamento se justifica pelo comum uso que fazemos de poesia e
poema como sinônimos. Porém, no estudo puro da composição poética,
perceberemos que nem toda composição versificada contém poesia.
Poderíamos até dizer, com toda confiança, que a poesia não precisa
necessariamente do verso para se manifestar. Assim é que podemos
encontrá-la na prosa, e até mesmo em outras manifestações artísticas,
como a pintura, a música, etc. Perguntaria: como isso é possível? É
possível porque a poesia é gerada, para o apreciador da obra, pelo
conteúdo de uma forma de expressão.
No
processo do conhecimento e do relacionamento do homem com o mundo,
existe uma manifestação paralela à inteligência, à racionalidade, que é a
emoção. Você pode olhar o pôr-do-sol com os olhos de um astrônomo,
defini-lo e explicá-lo. Mas pode também, olhá-lo com os olhos de um
artista e diante daquela síntese de imagem e cor sentir algo estranho,
emocionar-se. Tomados então por este estado de admiração, passamos a
desenvolver um sentimento de prazer diante do belo: o prazer estético.
Assim,
a leitura de um poema ou a contemplação de um quadro, pode
sensibilizar-nos, a ponto de despertar em nós um estado emotivo ou
lírico. É a sublimidade da beleza poética, que reflete as mais profundas
e elevadas sensações do espírito humano, e que constitui na essência, o
lirismo.
Antônio Soares Amora dá-nos uma clara definição de poesia e poema:
Poesia é
o estado emotivo ou lírico do poeta, no momento da criação do poema; o
estado lírico reviverá na alma do leitor se este lograr transformar o
poema em poesia.
Poema é
a fixação material da poesia, é a decantação formal do estado lírico.
São as palavras, os versos e as estrofes que se dizem e que se escrevem,
e assim fixam e transmitem o «estado lírico» do poeta.
Costumava,
sempre, exemplificar estas definições, comparando-as com um caule e sua
flor: o caule, as folhas, os espinhos e a flor formam o poema (é a
parte material), mas o perfume que exala da flor é a poesia.
E para fecharmos, sinta a poesia deste texto em prosa:
“Era
por uma dessas noites vagarosas de inverno, em que o brilho do céu sem
lua é vivo e trêmulo; em que o gemer da mata é profundo e longo; em que a
solidão dos riachos é absoluta...” (A. Herculano)
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Ricardo Sérgio
