segunda-feira, 29 de dezembro de 2014


ANJOS

Eu sinto a morte tão perto que quase posso tocá-la.
Mas eu sinto um anjo perto de mim também.
Eu vi esse anjo vestido de branco.
E pude tocá-la de verdade.
Sim o anjo vinha em forma de uma mulher.
Eu vivo no inferno, mas ando com anjos.
A morte não me assusta.
O que me assusta são seres humanos.
Eu não sei o que eles são.
Anjos são tão calmos e suaves.
Tão diferentes.
Dá vontade de ficar conversando sem parar.

/pco

terça-feira, 23 de dezembro de 2014


PALAVRAS AO CHÃO

Apanhe essas minhas palavras que jogaste no chão.
Não as amasse nem as jogue no lixo.
Antes de escrevê-las passei fome de amor.
Hoje o meu amor se alimenta dessas minhas palavras.
São as palavras e não o silêncio que mantém vivo os poetas.
Não é o amor.
Se você não gosta delas ou não as compreende.
Guarde-as, amarradas num jornal velho em cima do seu guarda-roupa.

pco/.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014


INFINITO DESCONHECIDO

Eu prefiro a minha consciência
de ser o que realmente penso que sou
Do que o teu "amor"
que criou uma imagem falsa de mim
Não, com certeza eu não nasci para satisfazer teu ego e seus caprichos, tuas necessidades
Eu sou o que eu sou
Mesmo não sabendo onde estou ou para onde vou
Natural, desprendido e espontâneo
O rio segue seu curso desviando das pedras e obstáculos em direção ao mar
Eu também quero me unir ao oceano que és Tu, Infinito Desconhecido
Energia Suprema e Criadora,
quanto tempo tem a eternidade do meu tempo?
Quanto tempo dura a espera contados no meu tempo?
Onde se desliga aquilo que mantém essa ilusão
Quando eu cheguei aqui, eu me lembro que havia alguém comigo
Nos perdemos em milhões de encarnações
Me perdi em milhões de ilusões e corações
Quanto tempo dura mesmo a Eternidade?
Doce essa ilusão, se não fosse apenas ilusão
Doce e suave esse amor e esse desejo que vejo nos teus olhos
Amarga essa lembrança de ti porque é apenas ausência

\pco

terça-feira, 16 de dezembro de 2014


 ISSO NÃO PODE SER DITO PARA AS CRIANÇAS

SE ALGUM DIA
A MILÍCIA DOS PETISTAS COMUNISTAS ME PEGAREM
DIGAM AOS MEUS NETOS
QUE EU MORRI LUTANDO
COM A ÚNICA ARMA QUE EU 
TINHA, A PALAVRA
MAS DIGAM A ELES TAMBÉM
QUE EU FIZ POEMAS COM ESSA MESMA ARMA
SE UM DIA A MILÍCIA DOS PETISTAS COMUNISTAS ME PEGAREM
DIGAM AOS MEUS NETOS
QUE EU MORRI FELIZ COMBATENDO OS CANALHAS
COVARDES
MAS NÃO DIGA A ELES ESSAS COISAS QUE EU DIZIA:
QUE O MUNDO É ILUSÃO
QUE O AMOR NÃO É DESSE MUNDO
QUE A FELICIDADE É MOMENTÂNEA E FRÂGIL
QUE O EGO É SACRIFÍCIO
QUE O INFERNO É AQUI
QUE OS DEMÔNIOS SOMOS NÓS
POIS ISSO NÃO PODE SER DITO PARA AS CRIANÇAS
DIGAM SIMPLESMENTE QUE TUDO É OCULTO
E A VIDA, MISTÉRIO
QUE NEM OS LIVROS E NINGUÉM SABE NADA
E QUE A VERDADE SÓ ME FOI REVELADA APÓS A MINHA MORTE
QUANDO JÁ NÃO TINHA MAIS A MINHA ARMA
E POR FIM DIGAM AOS MEUS NETOS
QUE MINHAS ÚLTIMAS PALAVRAS FORAM: "O CÉU É LINDO, É BOM VOLTAR PARA CASA"


/pco

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Depois eu penso alguma coisa para escrever.
Agora não.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014


CANÇÃO DO MEU EXÍLIO


Meu país tem ladrão onde canta o urubu
As rapinas que aqui nos sorrateiam, sorrateiam mais do que lá
(lá fora)
Minha terra tem um sapo barbudo e uma anta cascuda
e um monte de bicho feio chamado petistas, socialistas e comunistas
também tem um bando de ovelhinhas e cordeirinhos
que alimentam os petistas com seu dinheirinho
Minha terra é tão boa que se plantando tudo dá
ladrão deu de montão
Meu país tem a direita
e a esquerda caviar
na minha terra muitos trabalham
para os petralhas roubar

(como seria bom se eu fosse um poeta 
e nas palavras viajar)

\pco

domingo, 16 de novembro de 2014


EXISTE FELICIDADE EM ESCREVER?


Rodrigo Gurgel
novembro 16, 2014

Existe felicidade em escrever?

"Minhas dúvidas formam um círculo em torno de cada palavra." — Franz Kafka

O trabalho diário com as palavras não é fácil. Em abril de 1852, enquanto compõe Madame Bovary, Flaubert escreve a Louise Colet: “Estou mais cansado do que se empurrasse montanhas. Há momentos em que tenho vontade de chorar. É preciso uma vontade sobre-humana para escrever e eu sou apenas um homem”.

Esse tormento renasce, maior ou menor, no coração de cada escritor. Kafka anota, em novembro de 1910: “Quando sento-me diante da escrivaninha, meus ânimos não são melhores do que os do indivíduo que cai no meio da ‘Place de l’Opéra’ e quebra as duas pernas”.

Mas por que Kafka insistiu, ainda que escutasse “as consoantes se chocando com ruído metálico”? “Minhas dúvidas formam um círculo em torno de cada palavra; vejo-as antes que a palavra […]”, ele afirma e prossegue, cheio de incertezas. Sentindo-se “estéril como uma pedra”, Flaubert também foi adiante. E hoje, quando lemos o resultado dessas angústias, perguntamos qual o motivo de terem feito o que não é prazeroso.

Para um tempo como o nosso, em que o hedonismo quase sempre dita as escolhas, é difícil compreender. Mas o escritor sabe a resposta. Sabe que o prazer é o que menos importa na felicidade — como lembra Ortega y Gasset em seu ensaio “Sobre la caza” —, porque a felicidade consiste sempre “numa atuação, numa energia e num esforço”.

Rodrigo Gurgel