terça-feira, 30 de junho de 2009

Sutilmente

Skank
Composição: Samuel Rosa / Nando Reis

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
Quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
Quando eu estiver fogo
Suavemente se encaixe

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce

Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti

Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti (x2)

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce

Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti

Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti

Assista o vídeo dessa música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=ZI9jHSZM4ag

Nossa função de perdoar

Extraído do livro “O perdão e Jesus: O ponto de encontro entre Um Curso em Milagres e o Cristianismo”, de Kenneth Wapnick, Ph.D., Cap. 5, Nossa função de perdoar, pg 167/168
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Nossa função na terra é somente o perdão, pois através dele somos conduzidos para fora do inferno e aprendemos a função específica que Deus nos atribuiu, ao nos darmos conta de que nós temos tudo o que necessitamos. Dessa maneira nos livramos de nosso medo e culpa para fazer o trabalho específico em favor do Reino e para receber seu presente da paz.

O perdão requer uma mudança na perspectiva de como nós vemos o mundo da ilusão. Enquanto nós o virmos como um lugar onde nós encontramos prazer e tentarmos evitar a dor, nós seremos dependentes do que está fora: amaremos o que nos satisfaça e odiaremos o que criamos porque pode nos machucar. Em uma percepção assim a Paz é impossível, então o prazer ou a dor do mundo somente podem causar o conflito: se nós pensarmos que algo pode nos dar prazer, também pensaremos que pode nos causar dor. Dessa maneira, uma ambivalência inerente se incorpora a todas as coisas do mundo e o amor incondicional e permanente se faz impossível. O mundo se separa em dois campos e a criação única de Deus é negada.
O prazer e a dor, conseqüentemente, não representam uma alternativa verdadeira desde representam uma escolha entre ilusões, que concede ao mundo um significado que ele não tem. Retornar à casa de Deus é seu único significado. Ele é imutável, mas nossas percepções e necessidades sempre mudam. Um dia somos atraídos por esta pessoa, objeto ou devoção e não dia seguinte nossas preferências mudam a algo diferente. Todas estas não são do que “míseras e insensatas substituições (da verdade), tocadas pela loucura e rodopiam numa seqüência louca como plumas dançando de forma insana a mercê do vento… Elas fundem-se, misturam-se e separam-se em padrões deslocáveis totalmente sem significado... “(T-18.I.7:6-7).

Isto não significa que se deva viver sem necessidades nem preferências. Nós não viveríamos aqui no corpo se isto fosse assim. Não obstante, quando nós pomos nossas vidas sob a direção do Espírito Santo, Ele nos ajuda a reconhecer onde estão nossas verdadeiras necessidades. Ele usa tudo o que é original em nós - nossas virtudes assim como nossos defeitos para nos ensinar suas lições. O plano de sua lição é gradual e benevolente, e nunca nos pede que renunciemos a absolutamente qualquer coisa. o curso diz de si mesmo: "Esse curso não requer quase nada de ti. É impossível imaginar outro que peça tão pouco ou que possa oferecer mais". (T-20.VII.1:7-8).

O Espírito Santo simplesmente nos pede que prestemos atenção às nossas preferências, de modo que Ele possa nos ensinar a diferença entre o que verdadeiramente nos faz felizes e infelizes e que escolhamos novamente o que realmente preferimos. O Curso nos diz: “Não podes reconhecer o que é doloroso, da mesma maneira que tampouco sabes o que é feliz, e, de fato, és muito propenso a confundir ambas as coisas. A função primordial do Espírito Santo é ensinar-te a distinguir entre uma e outra.” (T-7.X.3:4-5).

Uma vez que experimentamos que é nossa escolha abandonar nosso investimento nas coisas mundanas, esperando que nos tragam a salvação ou a felicidade, o ressentimento e a sensação de perda ou de sacrifício se fazem impossíveis. Quando finalmente nos damos conta de tudo o que Deus nos deu, “E irás pensar, em feliz espanto, que por tudo isso a nada renunciaste!” (T-16.VI.11:4). O caminho para Deus tem por destino ser um caminho feliz, devido Àquele para Quem nos conduz, pois quando nosso desejo se harmoniza com o do Espírito Santo, só felicidade e paz podem resultar. Nessa união de vontades, se desfaz o ego e desaparecem seus aparentes presentes, eclipsados pelo presente único de Deus.
O propósito do perdão é ajudamos a alcançar a percepção unificada de que este mundo não tem nada para oferecer porque aqui nada é duradouro e “não podemos levar nada conosco”.

Só Deus permanece e, conseqüentemente, o valor real das coisas mundanas reside na ajuda para aprender esta lição que o curso nos ensina: a intenção do mundo é ensinar-nos que o mundo não existe. As coisas do mundo, por si mesmas, não são boas nem más. É o propósito que lhes damos o que determina seu valor. O verdadeiro prazer provém do cumprimento desta função, ao fazer a Vontade de Deus no contexto de nossas vidas diárias. A dor é o resultado da função não cumprida, da negação das lições de perdão do Espírito Santo. Sem que tenhamos presente esta perspectiva maior, nos encontraremos de volta à experiência de necessidades que não foram satisfeitas no passado ou no presente.

Aprendemos a lição de perdão do Espírito Santo através de nossas relações e situações de vida. Pessoas difíceis que conhecemos, as provas pelas quais passamos, os sofrimentos que experimentamos – todos têm o mesmo propósito básico de nos dar a oportunidade de olhar pela visão misericordiosa do Espírito Santo em vez dos olhos reforçadores de culpa do ego, para perdoar aos demais e a nós mesmos. Isto não significa que neguemos que no mundo ocorrem coisas que não deveriam ocorrer, mas simplesmente acontece que há outra maneira de vê-las que nos produz a liberação última de todo sofrimento: a profunda fé na Presença constante de Deus que vive em nossos corações e que transforma a dor em felicidade. Como afirma o Curso: “Nenhuma forma de sacrifício e sofrimento pode durar muito tempo diante da face daquele que perdoou e abençoou a si mesmo.” (L-pI.187.8:6).

Posto que há um só problema, só há uma solução. O perdão corrige a culpa e fazer isto, verdadeiramente é fazer isto sempre. Ao fracassar em perdoar, nós nos condenamos a um círculo aparentemente interminável, no qual o passado se repete no presente, o que Freud chamou de repetição-compulsão. As lições que fracassamos em aprender em certo período de nossas vidas se apresentam de novo e nos oferecem oportunidades que se repetem até que se aprenda a lição.

Esta não é a idéia cruel de uma piada do Espírito Santo, mas Sua forma amorosa de nos ajudar a atravessar por um problema de culpa que de outro modo não poderíamos ter atravessado. Se escolhemos ver a lição como uma carga adicional e uma maldição, permaneceremos condenados pela culpa que é reforçada por projetar a culpa sobre os demais. Quando nos decidimos a aprender as lições e escolhemos perdoar, correspondentemente perdoamos a todos os que não perdoamos no passado.

Resumindo, solucionar um problema através do perdão é um processo de reconhecer em primeiro lugar que os demais não são responsáveis por nossa infelicidade e em segundo lugar, que todas as nossas necessidades e carências foram satisfeitas e só esperam por nossa aceitação. “Que eu reconheça que meus problemas já foram resolvidos.” (L-pl.80). Além de nossa culpa está a abundância e a plenitude de Deus. Nossa decisão de querer unicamente essa abundância para nós mesmos e para todos os demais é a decisão de perdoar. É uma decisão que permite ao Espírito Santo nos ajudar a cumprir a única função que em verdade temos, pois é a única função dada por Deus e a que faz possível a todas as demais. Unicamente aqui se encontra o verdadeiro prazer; pois só na paz de Deus encontramos descanso para nossas almas.
A decisão de permitir que o Espírito Santo tome nossas decisões por nós mesmos é ofensiva só para o ego, e este nos acusaria de acomodação ou passividade neurótica. Não obstante, nossa passividade está simplesmente em deixar para trás o nosso ego de modo que o ímpeto para nossa vida proceda de Deus. Energizados por Seu Poder, saímos pelo mundo para realizar a obra do Espírito Santo, ao tê-lo como guia, em lugar do ego, nos tornamos passivos aos caprichos do ego, porém ativos à Vontade de Deus. Isto nos assegura que Sua Vontade se faz em nossos corações e através de todo o mundo, de maneira que todos encontram a paz em meio da guerra, unidade na discordância e amor diante do ódio.

O Espírito Santo nos pede que vejamos todas as coisas como lições de perdão que Deus quer que aprendamos. Assim, percorremos o mundo em Espírito de gratidão pelas oportunidades que nos são oferecidas para nos liberarmos da culpa. Cada situação pode nos ensinar isto, desde que permaneçamos receptivos a aceitar sua dádiva. O que pedimos nos é concedido. Se nos somamos a um mundo de medo e vemos ali o medo que se oculta em nossos corações, é este medo o que receberemos. Se em troca oferecemos perdão ao mundo, ao ver em todo ataque um desesperado grito de ajuda, será nosso próprio perdão o que encontraremos.

As prisões de culpa e medo que estabelecemos para nós mesmos e para os demais, quando as entregamos ao Espírito Santo, se transformam em santuários de perdão. Aí se desfazem nossos “pecados secretos e ódios ocultos” ao vê-los nos outros e logo os abandonamos, trazendo afinal a paz a todos aqueles que “perambulam pelo mundo, solitários, inseguros e presos pelo medo” (T-31.VIII.9:2; T-31.VIII.7:1). Nós vagamos entre eles, e assim somos trazidos uma e outra vez a este santo recinto por Ele Mesmo Santíssimo, de modo que possamos escolher reconhecer em cada um a santidade que nós esquecemos e que agora nosso perdão nos lembra.

Não devemos nos sentir agradecidos, então, pelo que antes nos parecia uma maldição do infortúnio? Não devemos permitir que o cântico de gratidão preencha nosso coração, porque o Céu não nos deixou sozinhos em nossa prisão de medo, mas ali se uniu a nós para que todas as criaturas de Deus sejam livres? E não devemos despertar a cada manhã com esta oração de agradecimento em nossos lábios, agradecendo a Deus as oportunidades que Ele nos trará?

“Pai, ajuda-me neste dia a ver só a Tua Vontade em todo aquele que encontre; que eu possa ensinar a única lição que Tu queres que eu aprenda: que todos os meus pecados foram perdoados porque eu os perdoei em todos os irmãos e irmãs que Tu me enviaste. Ajuda-me a não ser tentado pelo medo, a odiar ou a condenar; que permita que só o perdão se ponha nos meus olhos, de modo que possa ver seu amor em todo aquele que encontre hoje e que sei que também está em mim.”



segunda-feira, 29 de junho de 2009

A Seta e o Alvo

(Paulinho Moska)
Composição: Paulinho Moska e Nilo Romero

Eu falo de amor à vida,
Você de medo da morte.
Eu falo da força do acaso
E você de azar ou sorte.
Eu ando num labirinto
E você numa estrada em linha reta.
Te chamo pra festa,
Mas você só quer atingir sua meta.
Sua meta é a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Eu olho pro infinito
E você de óculos escuros.
Eu digo: "Te amo!"E você só acredita quando eu juro.
Eu lanço minha alma no espaço,
Você pisa os pés na terra.
Eu experimento o futuro
E você só lamenta não ser o que era.
E o que era?
Era a seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Eu grito por liberdade,
Você deixa a porta se fechar.
Eu quero saber a verdade
E você se preocupa em não se machucar.
Eu corro todos os riscos,
Você diz que não tem mais vontade.
Eu me ofereço inteiro
E você se satisfaz com metade.
É a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa não te espera!
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?
Sempre a meta de uma seta no alvo,
Mas o alvo, na certa, não te espera.
Então me diz qual é a graça
De já saber o fim da estrada,
Quando se parte rumo ao nada?

Brasileira ganha concurso mundial de Redação...

Clarice Zeitel Vianna Silva, 26 anos, estudante de direito, dançarina do Caldeirão do Huck. VENCE CONCURSO MUNDIAL DE REDAÇÃO. Imperdível para amantes da língua portuguesa, e claro também para professores. Isso é o que eu chamo de jeito mágico de juntar palavras simples para formar belas frases.

REDAÇÃO DE ESTUDANTE CARIOCA VENCE CONCURSO DA UNESCO COM 50.000 PARTICIPANTES Tema: 'Como vencer a pobreza e a desigualdade' Por Clarice Zeitel Vianna Silva UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro - Rio de Janeiro/RJ
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PÁTRIA MADRASTA VIL

Onde já se viu tanto excesso de falta? Abundância de inexistência. .. Exagero de escassez... Contraditórios? ? Então aí está! O novo nome do nosso país! Não pode haver sinônimo melhor para BRASIL. Porque o Brasil nada mais é do que o excesso de falta de caráter, a abundância de inexistência de solidariedade, o exagero de escassez de responsabilidade. O Brasil nada mais é do que uma combinação mal engendrada - e friamente sistematizada - de contradições. Há quem diga que 'dos filhos deste solo és mãe gentil.', mas eu digo que não é gentil e, muito menos, mãe. Pela definição que eu conheço de MÃE, o Brasil está mais para madrasta vil. A minha mãe não 'tapa o sol com a peneira'. Não me daria, por exemplo, um lugar na universidade sem ter-me dado uma bela formação básica. E mesmo há 200 anos atrás não me aboliria da escravidão se soubesse que me restaria a liberdade apenas para morrer de fome. Porque a minha mãe não iria querer me enganar, iludir. Ela me daria um verdadeiro Pacote que fosse efetivo na resolução do problema, e que contivesse educação + liberdade + igualdade. Ela sabe que de nada me adianta ter educação pela metade, ou tê-la aprisionada pela falta de oportunidade, pela falta de escolha, acorrentada pela minha voz-nada-ativa. A minha mãe sabe que eu só vou crescer se a minha educação gerar liberdade e esta, por fim, igualdade. Uma segue a outra... Sem nenhuma contradição! É disso que o Brasil precisa: mudanças estruturais, revolucionárias, que quebrem esse sistema-esquema social montado; mudanças que não sejam hipócritas, mudanças que transformem! A mudança que nada muda é só mais uma contradição. Os governantes (às vezes) dão uns peixinhos, mas não ensinam a pescar. E a educação libertadora entra aí. O povo está tão paralisado pela ignorância que não sabe a que tem direito. Não aprendeu o que é ser cidadão. Porém, ainda nos falta um fator fundamental para o alcance da igualdade: nossa participação efetiva; as mudanças dentro do corpo burocrático do Estado não modificam a estrutura. As classes média e alta - tão confortavelmente situadas na pirâmide social - terão que fazer mais do que reclamar (o que só serve mesmo para aliviar nossa culpa)... Mas estão elas preparadas para isso? Eu acredito profundamente que só uma revolução estrutural, feita de dentro pra fora e que não exclua nada nem ninguém de seus efeitos, possa acabar com a pobreza e desigualdade no Brasil. Afinal, de que serve um governo que não administra? De que serve uma mãe que não afaga? E, finalmente, de que serve um Homem que não se posiciona?

Talvez o sentido de nossa própria existência esteja ligado, justamente, a um posicionamento perante o mundo como um todo. Sem egoísmo. Cada um por todos... Algumas perguntas, quando auto-indagadas, se tornam elucidativas. Pergunte-se: quero ser pobre no Brasil? Filho de uma mãe gentil ou de uma madrasta vil? Ser tratado como cidadão ou excluído? Como gente... Ou como bicho?

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Premiada pela UNESCO, Clarice Zeitel, de 26 anos, estudante que termina faculdade de direito da UFRJ em julho, concorreu com outros 50 mil estudantes universitários. Ela acaba de voltar de Paris, onde recebeu um prêmio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) por uma redação sobre 'Como vencer a pobreza e a desigualdade' . A redação de Clarice intitulada `Pátria Madrasta Vil´ foi incluída num livro, com outros cem textos selecionados no concurso. A publicação está disponível no site da Biblioteca Virtual da Unesco.

terça-feira, 23 de junho de 2009

Eu que me Aguente Comigo


Contudo, contudo,

Também houve gládios e flâmulas de cores

Na Primavera do que sonhei de mim.

Também a esperança

Orvalhou os campos da minha visão involuntária,

Também tive quem também me sorrisse.

Hoje estou como se esse tivesse sido outro.

Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.

Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.

Caí pela escada abaixo subitamente,

E até o som de cair era a gargalhada da queda.

Cada degrau era a testemunha importuna e dura

Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,

Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,

Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.

Sou imparcial como a neve.

Nunca preferi o pobre ao rico,

Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.

Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,

Mas isso era outro mundo.

Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.

Acima de tudo o mundo externo!

Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.


Álvaro de Campos, em "Poemas" Heterônimo de Fernando Pessoa

Eu que me Aguente Comigo

Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.
Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.
Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.

Álvaro de Campos, em "Poemas" Heterônimo de Fernando Pessoa

Começo a Conhecer-me. Não Existo

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
ou metade desse intervalo, porque também há vida ...
Sou isso, enfim ...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.

Álvaro de Campos, in "Poemas" Heterónimo de Fernando Pessoa