domingo, 21 de março de 2010

Disseram-me que: o grande amor existe, sim.
E que quando ele vem a gente sabe que ele veio.
Mas ouso dizer que não acredito nele.
(e admito que esse não-acreditar é meu).

Tal descrença não é fruto, como muitos poderiam pensar,
de revolta, desilusão, sofrimento ou dureza de coração,
nem mesmo negação.

Falo isso por inexperiência.
Se o "grande amor" existe, eu ainda não o alcancei.
(ou ainda não o construi, pois que prefiro pensar o amor
como construção e aprendizagem,
e a imagem do grande amor me soa prejudicialmente mítica).

Eu prefiro acreditar em amores possíveis,
não necessariamente grandes.

(E qual amor que pretende ser amor
não aspira a grandeza? )

quinta-feira, 11 de março de 2010

“Mesmo que já tenha atirado diversas vezes com o arco, continue prestando atenção na maneira como coloca a flecha, e como estende o fio”.

“O combate nada tem a ver com a briga”.


Lao Tzu

sábado, 27 de fevereiro de 2010

MOJUD, O HOMEM COM A VIDA INEXPLICÁVEL


1 – Acreditando no impossível, o impossível torna-se possível.

Havia um homem chamado Mojud. Ele vivia numa cidade onde obteve um pequeno posto numa repartição publica, e parecia provável que terminaria seus dias como Inspetor de Pesos e Medidas.

Um dia, quando estava caminhando pelos jardins de uma antiga construção, perto de sua casa, Khidr, o misterioso guia dos sufis, apareceu para ele, vestido num verde reluzente.

Khidr disse: “Homem de brilhantes perspectivas! Deixe seu trabalho e encontre-me na beira do rio dentro de três dias.” Então desapareceu.

2 – Todo homem é um homem de brilhantes perspectivas, porque todo homem tem Deus como seu florescimento supremo.


Mojud, trêmulo, foi até seu superior dizendo que tinha que partir. Todos da cidade logo ficaram sabendo disso, e comentaram: “Pobre Mojud! Ele enlouqueceu.”

Mas, como havia muitos candidatos para se emprega, logo o esqueceram.

No dia marcado, Mojud encontrou-se com Khidr, que lhe disse: “Rasgue suas roupas e atire-se na correnteza. Talvez alguém o salve.”

Mojud assim o fez, mesmo suspeitando ter enlouquecido.

3 – A crença floresce a partir do coração.


Como sabia nadar, não se afogou, mas logo foi levado para bem longe, até que um pescador o puxou para seu barco, dizendo: “Homem tolo! A correnteza está forte. O que está tentando fazer?”.

Mojud respondeu: “Eu, na verdade, não sei.”

“Você é louco”, disse o pescador, “mas o levarei para minha palhoça ao longo do rio, e veremos o que pode ser feito por você.”

Quando descobriu que Mojud era instruído, aprendeu a ler e a escrever com ele. Em troca, Mojud ganhava comida e ajudava o pescador em seu trabalho.

Depois de alguns meses, Khidr novamente apareceu, desta vez aos pés da cama de Mojud, e disse: “Levante-se agora e deixe este pescador. Suas necessidades serão supridas.”

4 – Estou falando sobre a correnteza da consciência interna.


Mojud imediatamente abandonou a palhoça, vestido como pescador, e perambulou até chegar a uma estrada.Quando começo a amanhecer, viu um fazendeiro montado num burro, a caminho do mercado.

“Você procura trabalho?”, perguntou o fazendeiro, “porque preciso de um homem para me ajudar a trazer de volta algumas compras.”

Mojud o seguiu. Trabalhou para o fazendeiro por aproximadamente dois anos, e durante esse tempo aprendeu muito sobre agricultura, mas pouco sobre outras coisas.

Uma tarde, quando estava enfardando lã, Khidr apareceu para ele, dizendo: “Deixe esse trabalho, vá para a cidade de Mosul e use suas economias para tornar-se um comerciante de peles.”
Mojud obedeceu.

5 – Você está aqui para aprender os caminhos da confiança.


Em Mosul ficou conhecido como comerciante de peles, nunca vendo Khidr durante os três anos em que exerceu seu comércio.

Havia economizado uma grande soma em dinheiro e estava pensando em comprar uma casa, quando Khidr apareceu e disse: “Dê-me seu dinheiro, saia desta cidade e caminhe até a distante Samarkand, e lá trabalhe para um merceeiro.”

Mojud assim o fez.

6 – Somente ao vive-lo você o conhecerá.


Logo começo a mostrar indiscutíveis sinais de iluminação. Curava os doentes, ajudava seu companheiro na loja durante suas horas vagas e seu conhecimento dos mistérios tornava-se cada vez mais profundo.

Sacerdotes, filósofos e outros que o visitavam, perguntavam: “Com quem você estudou?”

“É difícil dizer”, respondia Mojud.

7 – A própria vida torna-se a mestra.


Seus discípulos perguntavam: “Como você começou sua carreira?”
Ele respondia: “Como funcionário público.”


“E você abandonou o cargo para se dedicar a automortificação?”

“Não, simplesmente abandonei.”

Eles não o compreendiam. Pessoas aproximavam-se dele para escrever a história de sua vida.

“O que você fez na vida?”, elas perguntavam.

“Pulei num rio, tornei-me pescador, depois deixei a palhoça no meio da noite. Então, tornei-me camponês. Enquanto enfardava lã, mudei e fui para Mosul, onde me tornei comerciante de peles. Lá, economizei algum dinheiro, mas me desfiz dele. Então caminhei para Samarkand onde trabalhei para um merceeiro. E aqui estou agora.”

8 – A espiritualidade é uma dádiva. Ela surge para aqueles que confiam, ela acontece para aqueles que amam, e que amam imensamente.


“Mas esse comportamento inexplicável nada esclarece sobre suas estranhas dádivas e maravilhosos exemplos”, disseram os biógrafos.

“Isso é verdade”, disse Mojud.

Então os biógrafos construíram para Mojud uma maravilhosa e excitante história; porque todos os santos devem ter suas histórias, e a história deve ser de acordo com o apetite do ouvinte, e não com a realidade da vida.

E a ninguém é permitido falar diretamente de Khidr. É por isso que este conto não é verdadeiro. Esta é uma representação de uma vida. Esta é a vida real de uma dos maiores sufis.

Texto extraído do livro “Mojud, O Homem com a Vida Inexplicável” – Osho


Paulo Cesar de Oliveira

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

"Encha sua tijela até a borda e ela transbordará.

Continue a afiar sua faca e ela ficará cega.

Persiga o dinheiro e a segurança e o seu coração nunca relaxará.

Preocupe-se com a aprovação dos outros e você será prisioneiro deles."

(Lao Tzu)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Quanto mais claro
Vejo em mim, mais escuro é o que vejo.
Quanto mais compreendo
Menos me sinto compreendido.

Ó horror paradoxal deste pensar... "

(Fernando Pessoa)

MINHA ALMA RESPONDEU...

Mestre,

ENVIEI MINHA ALMA ATRAVÉS DO INVISÍVEL PARA SOLETRAR ALGUMA CARTA DESTE PÓS VIDA, MAS DE REPENTE ELA VOLTOU PARA MIM E RESPONDEU: EU MESMA SOU O CÉU E O INFERNO.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

DESPRENDIDO E NATURAL


Então vamos lá...Vamos para a primeira postagem do ano de 2010. Vamos de mestre Osho.


Desprendido e natural

Toda a sociedade ensina-te a impor algo aos outros. Sê bom, sê moral, sê isto, sê aquilo. E Tantra está inteiramente para além da sociedade, da cultura, da civilização. Ele diz que, se fores demasiadamente culto, perderás tudo quanto é natural e, então, serás uma coisa mecânica, sem flutuar, sem fluir. Portanto, não forces uma estrutura em torno de ti — vive momento a momento, vive em vigilância. E isso já é profundo o bastante para ser entendido.

Por que razão as pessoas tentam criar uma estrutura em torno delas? Para não necessitarem da vigilância — porque, se não tiveres um caráter em torno de ti, precisarás estar muito, muito atento: cada momento terás de tomar uma decisão. E tu não tens decisões pré-determinadas, não tens uma atitude. No entanto, tens de responder a uma situação: algo está ali e estás inteiramente despreparado para isso. Terás de ser muito, muito consciente.

Para evitar a vigilância as pessoas criaram um artifício, e o artifício é o caráter. Force-se uma pessoa a determinada forma de disciplina e, esteja ela ou não em vigilância, a disciplina por si só ocupar-se-á de tomar conta. Tome-se como hábito o dizer sempre a verdade, faça-se disso realmente um hábito, e já não será mais preciso ter preocupações. Alguém fará uma pergunta e, pela força do hábito, será preciso dizer a verdade. Mas, dita pela força do hábito, a verdade estará morta.

E a vida não é tão simples. A vida é um fenômeno muito complexo. Às vezes, uma mentira é necessária, como, às vezes, uma verdade pode ser perigosa — devemos estar atentos. Por exemplo, se através da nossa mentira a vida de alguém é salva, se através dela ninguém é prejudicado e a vida de alguém é salva, que faremos? Se tivermos a mente fixa na idéia de que devemos ser verdadeiros, mataremos, então, uma vida.

Nada é mais valioso do que a vida, verdade alguma é mais valiosa do que a vida. E, às vezes, nossa verdade pode matar a vida de alguém. Que farias? Só para salvar teu velho padrão e hábito, teu próprio ego, o "sou um homem verdadeiro", sacrificarias uma vida — só para ser um homem verdadeiro, só por isso? Estarás completamente louco! Se uma vida pode ser salva, mesmo que as pessoas te achem um mentiroso, que mal há nisso? Por que dar tanta importância ao que as pessoas dizem a teu respeito?

É difícil! Não é assim tão fácil criar um padrão fixo porque a vida segue, movendo-se e modificando-se e, a cada momento, há uma nova situação para a qual é preciso dar resposta. Responde com inteira consciência, isso é tudo. E deixa que a decisão saia da própria situação, não pré-fabricada, não imposta. Não tenhas contigo uma mente inteiramente edificada; conserva-te desprendido e natural.

Assim é um homem realmente religioso. De outra forma, as pessoas tidas como religiosas estão mortas. Agem de acordo com seus hábitos, continuam agindo de acordo com seus hábitos — isto é condicionamento, não liberdade. E percepção exige liberdade.


Osho, em "Tantra: A Suprema Compreensão"